O que você consegue fazer em 10 horas e 8 minutos? São muitas possibilidades, mas o que o brasileiro tem feito com esse tempo é uma coisa só: navegar pelas redes sociais. Uma pesquisa apontou que os brasileiros, entre 16 e 64 anos, estão no topo da lista de tempo gasto na internet. A média geral de todos os países é de 6 horas e 54 minutos, apurou a pesquisa The Global State of Digital 2021, feita em parceria entre Hootsuite e We Are Social.

Quanto mais tempo conectados, mais suscetíveis às “armadilhas” da internet estamos, com seus anúncios que instigam a vontade de consumir e as redes sociais, que nos dão a sensação de vazio e ansiedade. E é sobre esse ambiente que Eugênio Bucci reflete em seu novo livro “A superindústria do imaginário – Como o capital transformou o olhar em trabalho e se apropriou de tudo que é visível”.

superindústria

“Nunca a humanidade esteve submetida a um grau de exploração tão intenso e tão elevado”, afirma o professor da ECA-USP e pesquisador no campo da comunicação. Em entrevista exclusiva à plataforma Negócios da Comunicação, Bucci detalhou os malefícios dessa nova indústria digital, na qual empresas e big techs estão em posse dos dados da população mundial e usam isso para criar um espaço de controle, que precisa ser regulamentado.

“A tecnologia é ótima. O controle privado e privativo da tecnologia é ruim”, pondera Bucci, que ressalta o poder dos algoritmos que, apesar de parecer controlar o modo como consumimos informações, segue invisível na internet. E afeta as pessoas que utilizam as redes sociais para apenas passar o tempo. “A Superindústria do Imaginário transformou a diversão em trabalho escravo”. Confira a entrevista.

NC | No livro a Superindústria do Imaginário você descreve um quadro aterrador.

Eu não tinha a intenção de que o quadro que descrevo parecesse aterrador. Trata-se de um alerta, com as fundamentações de que pude reunir, que nunca a humanidade esteve submetida a um grau de exploração tão intenso e tão elevado. Isso está acontecendo porque as plataformas sociais extraem o trabalho de bilhões de pessoas, a quem chamam de “usuários”, e essas pessoas acham que estão apenas se divertindo.

NC | O que fazer, então?

A Superindústria do Imaginário transformou a diversão em trabalho escravo. Os mecanismos da exploração eu descrevo no livro. O que fazer agora? Em primeiro lugar, compreender o que se passa. Em segundo lugar, regular esses mercados e limitar o poder das chamadas big techs, que são conglomerados monopolistas globais.

NC | Quando você dá o exemplo da Nike, marca que terceiriza toda produção, menos sua narrativa, significa que a mercadoria perdeu valor?

Não exatamente. Significa, isto sim, que a mercadoria mudou de estado. O valor de troca dessa mercadoria não está mais na coisa corpórea [no tênis, por exemplo], mas na imagem da coisa. Essa imagem está na marca, nos significados a ela associados e no gozo que ela confere ao cliente. É esse o centro de valor da mercadoria na nossa era.

NC | Isso atinge as classes sociais mais vulneráveis?

Isso alcança todo mundo, em todos os lugares. É claro que as populações marginalizadas e excluídas, que passam fome, têm menos acesso ao consumo da imagem da mercadoria. Também elas sofrem com a uberização generalizada da exploração, são condenadas a se agasalhar com o rebotalho da indústria da moda e, principalmente, também elas têm o seu desejo sequestrado pelas engrenagens sedutoras dessa fábrica de fantasias.

NC | Toda a indústria de mercadoria tem que fazer sua narrativa nesses novos dominadores?

Sim, exatamente isso. A Superindústria do Imaginário não é um capitalismo à parte, mas a forma dominante do capitalismo dos nossos dias. De um modo ou de outro, toda a atividade econômica acaba confluindo para o atrator de olhar da Superindústria do Imaginário.

NC | Por que você fala em existência vazia do consumidor?

Porque é assim que vejo. O consumidor, pobre dele, é um sujeito demandante, que padece de uma sensação incurável de vazio, e sai por aí suplicando pelo afeto da mercadoria. Sei que essa é uma visão ácida, talvez antipática, mas é a forma que encontrei de lançar esse alerta.

NC | Essa superindústria captura nosso olhar, monopoliza nossa atenção, mas o que ela quer mesmo é o nosso tempo?

Ela quer o nosso desejo. Ela traga o nosso desejo. E nós, seus escravos, entregamos de graça nosso desejo, os circuitos secretos dos nossos desejos, que são nossos dados mais valiosos, assim como entregamos nosso trabalho, postando fotos, vídeos, textos, nossas horas, nossos dias, nosso olhar mais sôfrego. Entregamos tudo e, na maior parte dos casos, achamos que estamos nos servindo das funcionalidades digitais que nos teriam sido dadas de presente.

NC| Esse trabalho que você diz que é disfarçado de diversão, entre outros, sempre existiu. Qual a diferença agora?

Não tenho certeza de que seja algo que sempre existiu como o que é hoje, como trabalho que fabrica valor. Sempre houve rituais religiosos, por exemplo. Deles, podemos dizer que cimentavam laços de poder, descontadas todas as funções espirituais, que não me cabe discutir. Da mesma forma, sempre houve jogos, competições, disputas simbólicas ou reais, como as guerras. Hoje, no entanto, as atividades não se encontram mais em domínios específicos, separados das relações econômicas. O que temos hoje é que as religiões estão virando um negócio. Basta ligar a televisão e ver. As religiões são mais ou menos um gênero do entretenimento, disputando horário com novelas, noticiários, programas de auditório e horário de futebol. O capital acabou ocupando os espaços que antes eram protegidos dele. Por isso, hoje, toda diversão fabrica valor econômico. As pessoas vão a um show, a uma partida de futebol, a um culto religioso e lá entregam olhar para a construção de marcas e de signos que são mercadorias. Isso é algo novo, decididamente novo.

superindústria

NC | Como o exercício do jornalismo se encaixa nesse novo contexto?

O melhor que podemos esperar é que o jornalismo saiba cobrir criticamente essa superindústria, sem se deixar engolir por ela totalmente. Em grande medida, áreas consideráveis do jornalismo já foram engolfadas.

NC | Conquistar audiência nas plataformas sociais se tornou o objeto de todos. Há um lado positivo nessa relação?

Claro que sim. Devo deixar esse ponto muito claro. O problema não é a tecnologia e os avanços comunicacionais que ela nos proporciona. O problema está nas relações de propriedade que confinam essa tecnologia. Veja, por exemplo, os algoritmos. Eles são propriedades fechadas, impenetráveis. Os algoritmos são opacos para quem não é o dono deles. Nós não sabemos nada sobre os algoritmos. Não sabemos como eles manejam com os nossos dados pessoais. E, de outro lado, os algoritmos sabem tudo sobre nós: conhecemos nossos amigos de infância, sabem dos nossos medos, das nossas inseguranças, das nossas ambições, do nosso estado de saúde. Essa relação não é leal, não é justa, não é equilibrada. Aí está o problema. A tecnologia é ótima. O controle privado e privativo da tecnologia é ruim.

NC | A representatividade e o suposto “ambiente democrático” que as redes oferecem é de fato um ganho para a esfera pública?

Sim. Mas hoje esse é um tema em disputa. Não sabemos se a democracia vai controlar as big techs, como Amazon, Facebook e Google, ou se são elas que vão controlar a democracia. Basta olhar para o crescimento das autocracias, algumas delas violentas, no mundo todo. Há uma simbiose perniciosa entre o discurso fascista dessas autocracias e as ferramentas mais requintadas da era digital monopolizada. Parecem ter nascido um para o outro.

NC | Por que as redes sociais se tornaram tão atrativas? O que está por trás dessa ânsia pelo prazer e pelo entretenimento da sociedade?

O que está por trás é o desejo. Por meio desses novos ambientes digitais, o capital aprendeu a interpelar diretamente o desejo, especializou-se nisso. O capitalismo já não fala mais em satisfazer necessidades, está empenhado unicamente em preencher os vazios abertos pelo desejo. O capitalismo se tornou um organismo sensual, ou mesmo pornográfico. É um jukebox oferecendo gozo a preço de ocasião.

NC | Quais são os riscos das empresas saberem mais sobre as pessoas do que elas mesmas?

O risco é de um totalitarismo privado. Ou, mais exatamente, um totalitarismo privado e monopolizado. Eu posso dizer que uma das diferenças cruciais entre democracia e totalitarismo está na transparência. Na democracia, o Estado tem o dever de ser transparente, pois o cidadão tem direito à informação sobre o poder. Por isso, também na democracia, a vida privada de cada pessoa é protegida. O Estado não pode invadir a privacidade de ninguém. No totalitarismo, o Estado não é transparente. Ele é opaco. O cidadão não consegue saber o que se passa dentro do governo. E, para piorar tudo, a vida de cada pessoa é irrestritamente transparente para o poder, que pode saber e controlar tudo de cada um e de todos, como bem entender, na hora que bem entender.

NC | E como isso se aplica no caso do ambiente digital?

Os algoritmos sabem tudo de nós e nós não sabemos nada deles. Eles ganham dinheiro explorando o nosso olhar, o nosso trabalho disfarçado de divertimento e os nossos dados íntimos. E nós não ganhamos nada deles, a não ser ofertas de gozo. Pense bem: estamos à beira de um novo totalitarismo.

NC | Você fala que esfera pública se submete à irresistível tirania das imagens. Qual a importância da imaginação para nós como sociedade?

Quando é livre, a imaginação enche de vida e de descobertas a nossa existência. Quando capturada por relações de propriedade iníquas, a imaginação é o que nos torna cativos.

NC | Você acredita em um mundo sem as redes sociais?

Não precisamos acabar com as redes sociais, de modo algum. Só o que precisamos fazer é tirá-las do controle de seus proprietários. O controle dessas ferramentas deve ser público, e deve funcionar conforme regramentos democráticos e não invasivos.