Mafoane Odara, Juca Guimarães e Nayara Fernandes durante o painel "A vida que importa na notícia: Como a representatividade racial e o combate ao racismo são tratados nas redações brasileiras"
Mafoane Odara, Juca Guimarães e Nayara Fernandes durante o painel “A vida que importa na notícia: Como a representatividade racial e o combate ao racismo são tratados nas redações brasileiras”

 

No 3º Fórum de Jornalismo Especializado, profissionais debateram representatividade racial na imprensa e exploraram formas de diminuir o abismo racial na cobertura

Os protestos por respeito às vidas negras sacudiram o Brasil há alguns dias após o assassinato de Beto Freitas, cidadão negro, por seguranças de uma unidade do supermercado Carrefour em Porto Alegre. Mas esse tipo de cobertura revela apenas a ponta do iceberg de uma representatividade racial que ainda está muito longe do aceitável, como afirmam Nayara Fernandes, repórter especial do portal R7, e Juca Guimarães, repórter na agência Alma Preta.

Eles participaram do painel A vida que importa na notícia: Como a representatividade racial e o combate ao racismo são tratados nas redações brasileiras, durante o 3º Fórum de Jornalismo Especializado, promovido pela plataforma Negócios da Comunicação, nos dias 1,2 e 3 de dezembro e 2020. A conversa foi mediada por Mafoane Odara, gerente do Instituto Avon.

Vida que importa

“A vida negra que importa na notícia deveriam ser todas as vidas negras”, comenta Nayara. “A eclosão dos protestos não foi uma surpresa, mas a cobertura mais extensa sim. Agora, é importante chamar a atenção para a violência como entretenimento também.”

Nayara ainda chama a atenção para o fato de que em um país com mais da metade da população preta e parda, os únicos motivos de destaque para essa população sejam histórias de sofrimento ou superação. “Precisamos normalizar a existência das pessoas negras”, diz. “Não queremos ser chamados só para falar em novembro. Temos tantos especialistas de saúde negros, empreendedores pretos, coletivos que estão levando mudanças na moda.”

Caminhos

O fato de o jornalismo ainda padecer de diversidade nas redações, com poucos negros e ainda menos em cargos de chefia, também colabora para a falta de representatividade racial e expõe um problema mais grave. “Se você observar, há um retrocesso: falava-se do direito ao voto nos anos 1960 nos EUA, e agora se fala sobre as pessoas se importarem com as vidas negras”, pontua Juca. “A luta é pelo reconhecimento da existência.”

Nayara explica ainda que as pessoas de forma geral estão dessensibilizadas com a violência. “Nós assistimos à exaustão às cenas da morte do Beto Freitas, e as manchetes eram “morte de homem negro”, ou seja, nem o direito ao nome na morte ele tem”, retrata. “E há ainda uma busca incessante para culpar o morto: provar que a pessoa que morreu tinha algum problema ou alguma questão que justificasse a morte dela”, completa Juca.

Para os debatedores, além das denúncias, o caminho está em celebrar as vidas pretas, tirá-las do contexto de apenas retratá-las em histórias negativas. “Nós também precisamos rejeitar a ideia de que um recorte racial da cobertura seria enviesado ou ativista”, alerta Nayara. “Porque, de fato, nós somos minoria.”

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