A História nos ensina que grandes transformações são em geral precedidas de grandes eventos. Alguns traumáticos, como as guerras, a peste. E outros por descobertas revolucionárias, como a força expansiva do vapor, as ferrovias, a energia elétrica, a lâmpada, a fissão nuclear e a internet, para citar alguns mais evidentes. A pandemia da Covid-19 é, sim, um evento histórico e certamente trará como consequência algumas transformações. O isolamento social, com a obrigatoriedade de nos protegermos em casa, terá consequências.

Além do trauma causado à sociedade, no Brasil e em todas as partes do mundo, sofreremos as consequências de caráter econômico, em decorrência da paralisação das atividades produtivas e do inerente desemprego. Mas saberemos, com trabalho e determinação, superar tais dificuldades.

O isolamento forçado também revelou novas práticas de trabalho em casa, onde se observou que os recursos tecnológicos já existentes – pouco conhecidos ou pouco utilizados – foram extremamente eficazes. Muitos, com tempo em casa, puderam trabalhar e se dedicar a exercícios físicos, a estudar com os filhos e a lavar louça. Outros, olharam para os espelhos e viram a si mesmos. E se perguntaram por que enfrentar diariamente horas no trânsito se poderiam ter ficado em casa recorrendo ao Zooms, ao Microsoft Teams e outros recursos disponíveis?

Aos poucos, no isolamento, percebeu-se que era possível ser produtivo e focado estando em casa. Os gestores, nas empresas, também reconheceram a eficiência dos seus times conectados e talvez trabalhando mais do que no escritório, intercalando momentos com a família e dedicados ao trabalho. Todos, de certa forma, fizeram as contas e descobriram que no final do dia estavam gastando menos e produzindo mais, para si e para a empresa. O isolamento nos fez ver que podemos mudar gradualmente nossa forma de trabalho em benefício de todos. Esta é, em síntese, uma pequena parcela das transformações que estão por vir.

Grandes corporações já pensam em não voltar ao modelo antigo e já estudam novas formas de trabalhar daqui para a frente. Algumas pensam em criar ambientes para o trabalho – espaços nos quais existem postos de trabalho indeterminados com computadores, mesas, salas de reunião, salas de vídeo conferência.

Se o profissional decide trabalhar no escritório, avisa a recepcionista e ela lhe reservará um espaço. O colaborador vai a este local, dedica algumas horas aos seus afazeres individuais ou coletivos, e retorna para casa quando achar conveniente. Outras corporações decidiram optar pelo trabalho em casa para todos os funcionários. Outras, um modelo misto entre casa e trabalho.

A transformação também está afetando o comércio online. Muitos comerciantes que ainda não haviam aderido ao modelo virtual, aprenderam a vender na internet. Restaurantes e lojas sobreviveram ao período de isolamento social com o delivery. Estes são apenas alguns dos sinais.

Tais mudanças exigem estudos e análises cautelosas para preservar os garantir o bem-estar dos colaboradores. Já estamos convencidos de que embarcaremos todos nessa onda de transformações na forma de trabalho. Alguns dos nossos profissionais adotarão um modelo misto, entre casa escritório. Outros, no escritório, por força das especificidades das suas atribuições funcionais. Há também aqueles que ficarão em casa ou em espaços próximos de casa proporcionados pela empresa. Não temos ainda respostas claras. Mas sabemos que este será o nosso futuro próximo.

O importante é que todos, estejam onde estiverem, fiquem conectados entre si e exercendo sua função para o sucesso das empresas e para o benefício da sociedade. A empresa pode ser traduzida como a somatória de cada um dos seus colaboradores, unidos no mesmo propósito e amparados pelos mesmos valores e atitudes. Cada um é relevante pelo que efetivamente faz e contribui: esteja onde estiver, desde que comprometido com o todo.

Outro fator relevante é identificar a saúde mental dos profissionais no retorno. Para muitos, o isolamento social e o convívio com a família foi produtivo para o seu bem estar. Para outros, o viver em casa pode ser traduzido por relações conflituosas que se acirraram. Há casos de abusos psicológicos e físicos, sabemos disso e não precisamos esconder sob o tapete.

O profissional que volta ao trabalho pode pensar estar voltando para a sua válvula de escape, longe do ambiente familiar não tão saudável. Ele espera retornar às rodas dos colegas, aos almoços divertidos. E não encontrará certamente um ambiente tão receptivo quanto antes. Estará longe de casa e longe do trabalho, olhando no espelho e vendo a si mesmo.

O ambiente virtual, da mesma forma, inibe o que poderíamos chamar de “teatro corporativo”, isto é, o legitimo exercício da ação política no trabalho, por meio da qual os talentos a são promovidos e conquistam novas posições e promoções. Como se expor virtualmente? As pessoas se expõem no trabalho, na sua forma de ser de interagir, de fazer uma venda, de apresentar seus projetos. Vivem seus personagens corporativos e buscam a ascensão e o reconhecimento. Virtualmente, na telinha do computador, este cenário será diferente. Como avaliar o desempenho virtual? Este é um desafio aos gestores.

Enfim, mudanças virão. Preparem-se para espiar o que há do outro lado do muro.