Marie Claire: 35 anos e aposta no empoderamento feminino

No formato físico e também disponibilizada em versão digital, a revista se consolida como curadora essencial da inteligência feminina

Nas últimas décadas, a revolução no comportamento feminino redesenhou a sociedade e, por consequência, forçou uma metamorfose profunda no mercado editorial. Se antes as revistas femininas eram pautadas por manuais de etiqueta, receitas domésticas e padrões estéticos inalcançáveis, hoje o foco migrou para a autonomia, carreira e saúde mental. A mulher contemporânea deixou de ser apenas uma consumidora de tendências para se tornar protagonista de narrativas complexas que exigem representatividade e profundidade.

Essa mudança de paradigma atingiu em cheio as publicações tradicionais. Títulos icônicos que não perceberam a urgência de temas como feminismo, diversidade de corpos e independência financeira perderam relevância e espaço nas bancas físicas e no ambiente digital. Para sobreviver, o setor precisou abandonar o tom prescritivo — que ditava o que a mulher “deveria” ser — para adotar uma postura de diálogo e acolhimento. A era digital acelerou esse processo, transformando revistas em plataformas multimídia, nas quais a interatividade é a regra.

Ao completar 35 anos no Brasil em 2026 e referência global em jornalismo feminino, a Marie Claire, título da editora Globo desde 1991, reafirma que seu papel não é apenas um suporte. É também um manifesto de influência e perenidade nas questões do mundo da mulher. E consolida-se como o maior exemplo de como o mercado editorial precisou evoluir para acompanhar a mulher moderna. Nascida na França na década de 1930 sob o espírito sufragista, a marca sempre teve os direitos femininos em seu DNA, mas foi nas últimas décadas que sua metamorfose no Brasil se tornou mais radical. A revista abandonou o papel de guia de beleza para assumir um posicionamento de “inteligência chique”, em que a moda é expressão política e não apenas consumo.

Para falar sobre essa trajetória, conversamos com Maria Rita Alonso, diretora de redação da revista. Ela revela que atualmente o sucesso editorial depende da curadoria de conteúdos que reflitam a realidade multifacetada das mulheres. O mercado se adaptou investindo em nichos, priorizando vozes plurais e pautas que combatem o etarismo e o preconceito. Mais do que vender produtos, as revistas agora buscam vender conexões e propósitos, entendendo que a leitora moderna valoriza a autenticidade acima de qualquer perfeição retocada.

Essa resiliência é apontada pelo relatório internacional Inside the Print Revival, da Media Voices, que indica o impresso como um antídoto à fadiga digital e à desconfiança gerada por conteúdos automatizados. No ecossistema de mídia, a revista física ocupa o lugar do “luxo acessível”, oferecendo uma experiência tátil que o clique efêmero não consegue replicar. Com uma plataforma de conteúdo diversificada que alcança 343 mil leitores em suas versões impressa e digital, a Marie Claire Brasil se beneficia de uma tendência global. Projeções da PwC indicam que o impresso deve responder por 80% da receita de revistas de consumo até 2026. O modelo atual foca em audiências leais e ávidas por profundidade, transformando cada exemplar em um evento editorial único.

A Marie Claire prova que a curadoria de conteúdo de alto impacto cultural é o maior diferencial para o engajamento com o verdadeiro poder feminino. Como define Maria Rita Alonso: “A Marie Claire chegou ao Brasil querendo dar voz a mulheres de vanguarda, a histórias extraordinárias de pessoas comuns e a conquistas inéditas das artistas, pensadoras, esportistas, empresárias e ativistas mais corajosas do país e do mundo. A ideia era colocar o dedo na ferida, questionar preconceitos, falar abertamente sobre casamento, maternidade, saúde, sexo, drogas e misturar tudo isso com informação e imagens de moda e beleza. 35 anos depois, estamos aqui, seguindo a mesma linha, trazendo na capa uma brasileira extraordinária, de feitos inéditos, que traduz esse espírito de coragem e movimento que representa a Marie Claire.”

Leia a entrevista exclusiva:

A que você atribui a longevidade da Marie Claire Brasil?

A longevidade da Marie Claire tem a ver com nossa combinação editorial. Desde que chegou ao Brasil, em 1991, a revista se propôs a falar abertamente sobre assuntos que muitas vezes eram tratados com silêncio ou superficialidade — casamento, maternidade, saúde, sexo, desigualdade, poder, comportamento — sempre ao lado de moda e beleza. Esse pacto entre inteligência, sensibilidade e relevância é o que mantém a marca viva há 35 anos.

Quais são as principais diferenças do público brasileiro em comparação aos leitores de outros países?

A brasileira quer informação, mas também quer identificação, repertório, serviço, conversa e posicionamento. No Brasil, moda e beleza nunca estiveram dissociadas de mobilidade social, autoestima, identidade e pertencimento. Por isso, nossa audiência costuma gostar da nossa abordagem no enfoque das pautas, que combina, de uma forma muito particular, matérias de serviço e comportamento, com histórias emocionantes de leitoras, notícias de moda e beleza e temas de interesse das mulheres. É um público muito atento a comportamento, direitos, representatividade.

O perfil das mulheres mudou nos últimos anos? Como a marca tem se adaptado a essas transformações?

O mundo mudou! E a mulher de hoje está menos disposta a aceitar papéis prontos e mais interessada em autonomia, saúde mental, carreira, dinheiro, longevidade, prazer, diversidade de corpos, de trajetórias e de escolhas. A Marie Claire se adaptou ampliando seus temas, aprofundando a cobertura de bem-estar, saúde, comportamento, direitos e carreira, sem abrir mão de moda, beleza e cultura. A marca também se tornou totalmente multiplataforma e mais atenta à velocidade com que essas conversas se deslocam entre impresso, site, vídeo, redes e eventos.

Quais são os números de venda em banca, assinaturas e audiência digital?

Cerca de 50 mil exemplares de circulação, 9 milhões de visitantes únicos por mês, em média no nosso site, além de forte presença em redes sócias, que somam mais de 2 milhões de seguidores.

Em quais outras plataformas a Marie Claire atua atualmente?

Além da revista, atua em site, newsletter, redes sociais, e aparece também no ecossistema digital da Globo, como o Globo+.

Como você enxerga o mercado editorial hoje, especialmente os desafios das vendas em banca?

O mercado editorial vive uma transição longa e complexa. As bancas perderam capilaridade, o hábito de compra por impulso diminuiu e a disputa pela atenção é brutal. Ao mesmo tempo, o excesso digital criou uma nova valorização do papel como objeto de permanência, curadoria e desejo. Eu vejo o impresso hoje menos como um produto de volume e mais como um ativo de marca, prestígio e experiência. É por isso que, para nós, uma edição impressa forte segue tendo valor editorial e comercial.

A marca atua com cursos, eventos ou outras frentes? Qual é hoje a principal fonte de
receita?

A marca atua, sim, em outras frentes, sobretudo eventos e projetos especiais. Temos um calendário de talks, especiais temáticos e iniciativas como o Festival Marie Claire. Hoje, esse braço de experiências e branded content é central para a força da marca. Em revistas de lifestyle premium, a receita tende a vir da combinação entre publicidade, projetos customizados, eventos, parcerias e produtos editoriais; no caso da Marie Claire, essas
frentes são cada vez mais estratégicas.

Qual é o perfil dos anunciantes? Há parceiros de longa data que acompanham a revista há anos?

Historicamente, a Marie Claire atrai anunciantes ligados a moda, beleza, luxo, cuidado pessoal, saúde, consumo premium e serviços que dialogam com mulheres de poder de decisão. Mais do que volume, o que buscamos é afinidade de valores. Sim, existem marcas que acompanham a revista há muitos anos, especialmente nos universos de beleza e moda, porque entendem que a Marie Claire entrega não apenas audiência, mas contexto,
credibilidade e associação simbólica.

Qual o percentual de conteúdo produzido no Brasil versus material traduzido?

Hoje a espinha dorsal da operação brasileira é conteúdo produzido no Brasil. Eventualmente há intercâmbio internacional, imagens e conteúdos de rede, mas o que define a relevância da Marie Claire Brasil é justamente a leitura autoral que fazemos do país e das transformações das mulheres daqui.

Como está o desempenho global da revista? Em quais países está presente e qual a posição da edição brasileira em comparação às demais?

Globalmente, a Marie Claire segue sendo uma das marcas femininas mais reconhecidas do mundo. A rede internacional lista atualmente 32 mercados, entre eles França, Estados Unidos, Reino Unido, Itália, Espanha, Japão, China, México, Brasil, Coreia, Ucrânia e Vietnã. A edição brasileira ocupa um lugar muito respeitado dentro dessa rede porque combina um histórico forte de jornalismo com uma leitura cultural muito própria e um
mercado publicitário relevante para moda e beleza.

Quais são os planos para o futuro próximo?

Nosso futuro passa por aprofundar o que sempre foi o nosso diferencial: jornalismo autoral para mulheres. Isso significa fortalecer a operação multiplataforma, investir em vídeo e formatos mais nativos das redes, ampliar eventos e experiências presenciais, e seguir defendendo um conteúdo que una desejo, inteligência e interesse público.

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