Já faz quase uma década que as fake news foram identificadas como um dos maiores desafios da sociedade contemporânea. O Fórum Econômico Mundial fez um alerta no Relatório de Riscos Globais já em 2013 para o grande risco que a disseminação de desinformação online trazia para a democracia.

As últimas eleições presidenciais nos Estados Unidos, o Brexit, a crise entre legislativo e judiciário no Brasil e a campanha contra o sistema eleitoral no nosso país foram ou tem sido terreno fértil para a propagação de conteúdo manipulador. O poder da comunicação digital para moldar a política já se tornou claro há muito tempo. Apesar das revelações de Snowden e do caso Cambridge Analytica, o lado obscuro dos dados e da tecnologia digital são parte integrante da nossa época. A guerra cibernética é o novo normal.

No contexto das fake news, um novo termo foi cunhado e tem sido muito usado nos Estados Unidos e na Europa: post-truth ou pós-verdade. A definição desse adjetivo diz respeito à “circunstâncias nas quais fatos objetivos são menos influentes na formação da opinião pública do que apelos à emoção e crenças pessoais”.

Pesquisas sobre o funcionamento da nossa memória jogam mais pólvora no debate sobre os efeitos da pós-verdade. O Dr. Daniel Schacter, especialista em neurociência da memória e professor da Harvard University, ganhou notoriedade ao conduzir experimentos que demonstraram que memórias de fatos que nunca aconteceram podem ser construídas a partir de imagens e conteúdos repetidos. Suas pesquisas sobre o uso do Facebook e Instagram revelaram que as mídias sociais têm o poder de moldar nossa memória de uma maneira que as pessoas tendem a se conformar com uma lembrança majoritária, mesmo que ela esteja errada.

Outro experimento conduzido em Israel, no Weizmann Institute of Science, pelo Dr. Edelson, foi ainda mais perturbador. Um grupo de voluntários foi convidado a assistir e responder perguntas acerca de um documentário. Em seguida foram expostos a informações fabricadas, que distorciam o fato. O surpreendente é que, mesmo após a revelação da farsa, parte significativa dos voluntários continuaram acreditando na informação recebida, o que levou a pesquisa a concluir que processos cognitivos que acontecem durante a exposição inicial a informações errôneas tornam mais difícil corrigir essas influências posteriormente.

Não resta dúvidas de que vivemos na era da opinião sobre o fato e de que esse fenônemo traz consequências impactantes. Em uma sociedade democrática, como discutir um assunto de forma saudável se os cidadãos não sabem distinguir o que é, de fato, verdade. A desinformação confunde, manipula e transforma o debate em um duelo infindável de opiniões.

E como o jornalismo se posiciona nesse contexto de incertezas? Há quem argumente que as fake news fomentam o descrédito nas instituições jornalísticas, uma vez que não fica claro para alguns o qué é notícia e o que é informação fraudulenta, lançando desconfiança de forma generalizada. No outro espectro, nunca antes a missão do jornalismo de informar corretamente a sociedade para que cada um possa se posicionar de acordo com seus próprios valores foi tão premente.

O fenômeno das fake news e da pós-verdade reforça a importância da existência de fontes de informação que sejam sérias, isentas e imparciais e vem oferecendo ao jornalismo a oportunidade de renovar sua credibilidade e re-assumir sua vocação histórica de guardião da democracia e propagador da verdade. Para além das organizações de checagem de fatos, que cumprem papel essencial, cabe à indústria jornalística se afastar de tentações sensacionalistas e caça-clique e valorizar o método jornalístico pré-digital, com suas camadas de verificação e controle, capazes de garantir a precisão, qualidade e justiça das notícias. A sociedade precisa desse compromisso.