bianca-1

O fotógrafo Raphael Alves, da agência EFE, se dedicou à cobertura da pandemia desde o início dos casos no Brasil, em fevereiro de 2020, e testemunhou os cemitérios improvisados lotarem dia após dia. Observando de perto a situação, comentou os impactos do negacionismo e das fake news na relação das pessoas com o coronavírus.

Ao mostrar a primeira imagem que fez dentro de um cemitério, ele apontou. “Uma senhora faleceu e o marido dela, apesar de ela ter sido testada positivo para Covid, ter entrado na estatística, saído com a certidão de óbito informando isso, não acreditava. Dizia que esse vírus era uma invenção para derrubar governos.”

O relato foi compartilhado pelo fotógrafo para o documentário Cercados, da Globoplay, que mostrou a realidade da cobertura jornalística em meio à crise da saúde no Brasil. E sintetiza o momento de constante combate às fake news e ataques que vêm de todas as partes da sociedade.

Defesa

“O jornalismo precisa ter uma defesa mais ampla da sociedade”, alerta Natalia Viana, fundadora da Agência Pública, dedicada ao jornalismo investigativo. A discussão sobre o apoio necessário aconteceu no painel ”A guerra contra a imprensa: A luta pela liberdade do jornalismo frente às hostilidades e tentativas de deslegitimação”, do 3º Fórum de Jornalismo Regional e Especializado, promovido pelo Cecom e pela plataforma Negócios da Comunicação.

“Há uma parcela da sociedade e aliados do governo que querem desacreditar o jornalismo e isso tem sido bem-sucedido em alguns setores”, completa. O ódio que toma conta do jornalismo também é latente por outros meios de comunicação: as redes sociais.

Com a pandemia, o uso da internet aumentou significativamente no Brasil, como aponta uma pesquisa da Comscore. Nos períodos de pico do coronavírus, os brasileiros dedicaram cerca de 108 horas no mês a mídias digitais, uma alta de 1% no engajamento digital do país.

Com isso, mais pessoas trocam mensagens por aplicativos como Telegram e Whatsapp, onde circula a maior parte das fake news, publicam no Facebook, Twitter e Instagram, onde houve aumento de bloqueio de posts contendo informações falsas, não checadas e também discursos de ódio, levando inclusive a bloqueio de usuários. Entre eles, o mais famoso foi Donald Trump, banido para sempre do Twitter.

Equipes de checagem

Muitas agências e equipes dentro das redações têm trabalhado exclusivamente para checar informações e divulgar se são reais ou não. “Parte da nossa função é pegar imprecisões das autoridades e mostrar: ‘olha, não é bem assim’. Você pode ter sua própria opinião, mas não pode ter seus próprios fatos”, define Sérgio Dávila, diretor de redação da Folha de S.Paulo.

E não apenas o jornalismo se torna vítima do momento de nervos à flor da pele e mentiras – as empresas, cada vez mais presentes no universo digital, precisaram reinventar seus sistemas de comunicação para lidar com haters nas redes sociais, exposição quanto a seus posicionamentos e críticas dos seguidores e consumidores com relação aos produtos.

“Quando identificamos comentários ou manifestações negativas em relação à marca, procuramos lidar com a devida transparência, colocando à disposição dos autores dessas interações os nossos canais para resolução de problemas, críticas, denúncias ou qualquer outra interatividade que demande ser tratada pelos meios adequados”, explica Alexandre Bassaneze, diretor-geral da Air Liquide Brasil.

No caso dos jornalistas, pelo contrário, as críticas e ataques acabam acontecendo publicamente, muitas vezes sob os olhos do próprio presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, que também expõe profissionais, destrata repórteres e tenta deslegitimar o trabalho da imprensa.

Ódio em toda parte

Em sua edição de 2020, o Ranking Mundial de Liberdade de Imprensa, mostra o Brasil ocupando a 107ª posição (caiu duas posições, desde 2019). Apesar de o continente americano ser considerado o segundo no mundo em condições favoráveis à prática jornalística, os países Estados Unidos e Brasil são apontados no texto do documento como “antimodelos”.

O Ranking também aponta as agressões que ocorrem nos ambientes digitais, chamadas de cyberbullying. O desenvolvimento dessas investidas faz uso de recursos avançados de tecnologia. A pesquisa destaca as mobilizações conduzidas por exércitos de apoiadores ou, então, dos chamados trolls, que destilam seu ódio nas redes, muitas vezes, sob o anonimato.

O documento reforça que “métodos de censura online estão proliferando perigosamente e são particularmente violentos contra as mulheres jornalistas”. No entanto, segundo o relatório, mesmo com o cenário de instabilidade política e a falta de apoio de governos, os jornalistas e meios de comunicação latino-americanos “demonstram uma grande capacidade de se reinventar para encontrar soluções alternativas a todo tipo de pressão”.

Anos desafiadores

“Nos anos recentes e, em especial 2020, há um avanço no meio do Governo que busca difamar e destruir a reputação de jornalistas”, comenta Natalia Viana, da Agência Pública e Jornalismo Investigativo. Uma realidade que, segundo a profissional, ataques a repórteres e blogueiros, que já eram comuns, passaram a ser mais perceptíveis – e seguem avançando. “É uma parcela da sociedade que quer desacreditar o jornalismo como um todo – e eles têm sido bem sucedidos nessa proposta, com um certo grupo de pessoas”, com uma certa parcela de pessoas”, preocupa-se.

Na visão do jornalista Mauri König, a essência do trabalho desenvolvido é a de servir ao interesse público, e não a um grupo político. “O jornalismo que busca as coisas que alguém está querendo esconder está sempre ameaçado”, cita. “Em alguma medida, se estão perseguindo jornalistas é sinal de que o jornalismo não está falando só o que o governo ou outras instituições querem que seja dito”, diz Mauri. “E o jornalismo precisa navegar nestas águas turbulentas.”

Nathalia, da Agência Pública, no entanto, observa que a defesa do jornalismo poderia ser feita por uma parcela mais ampla da sociedade. “O jornalismo brasileiro tornou-se mais investigativo e potente nesses dois anos de governo, mas ainda falta a sociedade entender o papel da profissão e a defenderem também”, relata.

Pesadelo virtual

Em outro nicho da comunicação, a publicidade, as tendências negativas também alcançaram as marcas, especialmente no canal de contato com o cliente que é mais utilizado: a internet. O gerenciamento das situações de crise e dos ataques se torna ainda mais importante diante do cenário positivo para as marcas online. O investimento feito em anúncios em mídias sociais em todo o mundo aumentou 56,4% no último trimestre de 2020, como aponta estudo da Socialbakers. O valor médio global do período quase dobrou em comparação ao que era durante o primeiro trimestre.

Para evitar a perda de clientes, consumidores e exposição negativa, os executivos de marketing e marketing de influência buscam aplicar boas práticas dentro das equipes de monitoramento e também direcionar os diálogos na comunicação direta com seguidores e clientes que se manifestam pelas redes sociais.

Quando o assunto são os haters e as formas de proteger os influenciadores parceiros, Emerson Neves, head de Marketing de Influência na ACOUT, afirma que é momento de ir além das palavras e debates. “O mundo está passando por um período difícil, de preconceito explícito e discurso de ódio, e isso acaba tendo resultados terríveis; temos que bater esse martelo e encontrar soluções para isso”, observa.

“Opinião é aquele ponto do qual você pode divergir, sem ofender o interlocutor e, principalmente, sem usar informações falsas”, delimita Mariana Maciel, líder de Comunicação Digital na Bayer. Na visão da especialista, o uso exacerbado das fake news está entre os recursos comuns nos conteúdos difundidos por haters.

Por atuar em uma empresa de áreas sensíveis como a farmacêutica e o agronegócio, é muito comum lidar, diariamente, com interações mais ofensivas. Em muitos casos, temas técnicos são julgados por esse tipo de audiência sob um viés estritamente político, que não tem relação com o conteúdo originalmente postado.

Mariana aponta, ainda, outra característica dessas manifestações, que vão além do assunto e passam a ser mais direcionadas. “Quando se ultrapassa a linha do que é o tema da discussão, para discutir o que é a pessoa – deixa de ser sobre o que o influenciador está falando e passa a ser sobre ele, o jeito que vive etc”, alerta.

Batendo de frente

A influenciadora Camila Monteiro convive com ataques diários nas redes sociais, independentemente do tipo de postagem que opta por fazer. Ela, que gosta de mostrar seu corpo real nas redes, também lida com mensagens machistas, além de gordofóbicas. De acordo com a creator, a gordofobia está inserida na cultura e, no mundo “real”, nem todos se expressam sobre o que estão sentindo.

No entanto, no ambiente virtual, após perder 87 kg, ela se vê recebendo todo tipo de comentário. “O anonimato dá esse conforto para a pessoa falar o que pensa, eu lido todos os dias com falas do tipo: ou porque eu era gorda, ou que eu emagreci, pelo excesso de pele, de estrias, de celulite”, conta.

Ela ressalta que os disseminadores de ódio, muitas vezes, não fazem ideia do impacto que essas mensagens podem causar. “Às vezes, uma palavra pode determinar todo o percurso na vida daquele ser humano; recebo inúmeras mensagens de mulheres que ouviram uma frase e aquilo foi devastador para sua vivência”, conta.
As pessoas em contato diário com essas manifestações negativas podem ter resultados problemáticos, diante de tanta pressão. “A gente guarda muito disso em nós, não se trata de uma opinião: é, simplesmente, maldade”, pontua.

Como escapar

Diante de interações ofensivas e gratuitas, existem dois caminhos que costumam ser utilizados tanto pelas marcas quanto pelos próprios influencers. No caso da Bayer, para mensagens em que seja identificada uma falta de determinado conhecimento ou, até mesmo, um tom de dúvida, há uma equipe que estabelece a comunicação com o objetivo de fornecer conteúdos informativos.

No entanto, em situações mais explícitas, de comunicação violenta, com uso de palavrões, essas interações são excluídas, por não acrescentarem nenhum tipo de debate ao fluxo. “A pessoa está ali, apenas, para jogar a raiva dela sobre outras coisas – e ela não vai mudar, por mais que a gente explique”, define.

Camila relata que, no começo, apagava o comentário ou bloqueava o usuário. “Com o passar do tempo, a dor ficou tão grande que dei um basta e comecei a expor essas pessoas”, recorda-se.O objetivo dessa atitude, afirma, é o de educar esses interlocutores sobre como se comportar em uma rede social. “Parece um manual óbvio, mas não é – tem gente que parece não entender como funciona uma sociedade”, desabafa.

Outro caminho que, inclusive, já foi utilizado pela influenciadora é o de optar pelas providências judiciais. “A lei está aí para ser utilizada; conheço muitos casos de influencers que processaram fakes e grupos e, assim, conseguiram descobrir a identidade de quem estava por trás dos ataques”, conta.

Além das redes

Apesar de acontecerem movimentos de disseminação de ódio nas redes sociais, quando eles tomam as ruas as marcas também entendem a necessidade de se posicionar no ambiente online. Isso ocorreu quando o norte-americano George Floyd foi morto pela polícia por asfixia, depois que um dos policiais ficou ajoelhado em seu pescoço.

Mais uma morte de uma pessoa negra pelas mãos das autoridades desencadeou manifestações nos EUA e no mundo todo, sob o mote “Vidas Negras Importam” (ou Black Lives Matter). Uma das ações que atingiu a internet foi o Blackout Tuesday, quando figuras, marcas e usuários se recusaram a postar nas redes sociais em protesto contra a violência. E depois disso, a cobrança dos internautas com o posicionamento das marcas cresceu ainda mais.

Para Mafoane Odara, quando uma empresa inicia sua relação na sociedade, ela estabelece um contrato social e, nessa jornada, a organização precisa refletir sobre a responsabilidade que ela tem e sobre o país que quer construir. “E esse país tem 56% da população negra e, até 2023, a projeção é que seja de 70%. A população brasileira é uma população negra – e não é minoritária, mas, sim, minorizada”, observa a então gerente do Instituto Avon. [À época da entrevista, hoje é Regional Human Resources Business Partner (LATAM), no Facebook].

Para a executiva, é necessário acontecer uma transformação, de dentro para fora das companhias, para que os mais diversos públicos façam parte dessa relação. “Se o negócio é para todo mundo, ele tem que atender a todos; quando a gente fala que Vidas Negras Importam, não basta tratar apenas sobre as mazelas, mas sobre as potências”, diz. De acordo com Mafoane, essa é uma oportunidade de amplificar vozes que sempre existiram, e que sempre fizeram acontecer.

Oportunismo

Quanto à possibilidade de algumas marcas estarem, apenas, “surfando” na onda desses temas, Egnalda Côrtes, CEO e fundadora da Côrtes, primeira agência de influenciadores negros da América Latina, acredita que estamos diante de um consumidor mais atento e pesquisador. “Se a empresa estiver comunicando algo que não seja coerente com o que tem desenvolvido na organização, vai ficar pior, vai trazer incoerência, conflito de imagem etc.”, aponta.

Ainda assim, para a CEO, mesmo com essa possibilidade de incoerência nas mensagens, é um espaço importante para o momento atual. “Sendo oportunismo ou não, existe um avanço; sinceramente, quem tem que se atentar a esse ponto são os dirigentes, para mim, ainda assim, é um movimento de emancipação”, ressalta.

Mafoane Odara destaca o tamanho desse desafio, e compara, dizendo que ele não é uma corrida de 100 metros, mas uma maratona. “Estamos falando de uma mudança cultural sobre um processo histórico, como a gente altera os modelos mentais: a forma como negros, mulheres, pessoas com deficiência e população LGBT são vistos na nossa sociedade”, pontua.

Na visão da executiva, a ocasião pede que uma sólida comunicação, interna e externa, ajude a construir uma cultura respeitosa. “Eu costumo dizer que, quando você vive entre seus iguais, você vive a vida. Mas, quando você vive entre os diferentes, está vivendo o seu universo”, afirma.

De olho em tudo

Conscientes da importância de manter a transparência, se posicionar e dialogar com os seguidores, , as empresas investem também em dois comportamentos essenciais: monitoramento e listening. É através desse monitoramento, por exemplo, que uma hashtag pode ser aplicada e levantar um engajamento em prol de um produto ou pauta que a marca deseja trazer à tona para seu público.

Um estudo divulgado no fim de janeiro pela revista Scientific Reports mostrou que após ser feito o monitoramento de 890 mil tuítes de mais de 570 mil usuários, em países europeus, foi identificado que pessoas relatavam problemas relacionados à “pneumonia” e “tosse seca” semanas antes de o coronavírus ser detectado pelos órgãos de saúde.

Os cientistas analisaram quantas vezes a palavra “pneumonia” apareceu no último inverno europeu (12/19 a 03/20) e compararam com os anos anteriores, até 2014. O estudo encontrou um aumento significativo, assim como tosse seca.

Diante dos fatos, Milena Lopreite, coordenadora da pesquisa e especialista em estatística da Universidade de Calábria, na Itália, afirmou que as organizações podem usar melhor as redes sociais para monitorar a evolução da própria Covid-19 ou novas doenças. Além disso, ela também alerta para que as instituições que se dedicarem a colher dados como esses recebam o devido respaldo dos governos para que dados pessoais sejam protegidos e que não haja possibilidade de disseminação de fake news sobre os números.

Com a ação das próprias redes sociais, bloqueando tuítes com informações incorretas, notícias falsas e ataques contra à imprensa e às instituições, o trabalho começa a ser feito no momento em que o combate ao negacionismo, ódio e mentiras é mais do que urgente.