Por Maurílio Biagi filho
O Brasil que dá certo existe e ele suporta o outro Brasil, com suas mazelas, ineficiências e todos os outros problemas que estamos cansados de acompanhar pelos noticiários. Esse Brasil que dá certo, sobe ao pódio,
conquista títulos, assina design autoral e transforma ciência em esperança.
Está no ouro de Lucas Pinheiro, na consistência vencedora de Rayssa Leal, na identidade criada por Oskar Metsavaht para os uniformes olímpicos e na pesquisa de Tatiana Sampaio em busca de novos caminhos para tratar a paraplegia.
Mas há outro Brasil que também dá certo todos os dias e que ainda não ocupa o mesmo espaço simbólico: o agronegócio. Somos um dos maiores produtores e exportadores de alimentos do mundo. Alimentamos quase dois bilhões de pessoas, desenvolvemos tecnologia tropical de ponta e ampliamos produtividade com menor expansão proporcional de área nas últimas décadas.
Ainda assim, o agro raramente é associado a superação, inovação ou propósito coletivo. Com frequência, é reduzido a caricaturas que ignoram a complexidade de um setor que envolve ciência, sustentabilidade, tecnologia, crédito, logística e inserção global.
Na Agrishow, o agro aparece como vitrine tecnológica, com tom positivo e celebratório. Na COP30, surge
como ator sob pressão política e ambiental, muitas vezes sob abordagem crítica. O contraste é estrutural.
Um exemplo emblemático é o etanol. O Brasil lidera uma das mais relevantes soluções de descarbonização. Estudos da Datagro indicam que um carro movido a etanol no Brasil pode emitir menos ao longo do ciclo de vida do que um elétrico abastecido por matriz energética europeia mais poluente. Ainda assim, no debate climático internacional, a mobilidade elétrica dominou a narrativa. O etanol perdeu espaço simbólico. Incrível que todos os carros da COP eram chineses montados na Bahia e movidos a eletricidade.
A COP30 deixou um aprendizado claro: ativos técnicos não se convertem automaticamente em legitimidade global. Seu alcance é transversal, político e reputacional, muito além do ambiente técnico da Agrishow. É ali que a percepção internacional se consolida.
Vivemos uma nova ordem mundial marcada por incertezas, tensões geopolíticas e reconfiguração de cadeias produtivas. Segurança alimentar e transição energética deixaram de ser pautas setoriais e tornaram-se
estratégicas. Países que conseguem alinhar produção, sustentabilidade e narrativa ocupam posição privilegiada nesse novo tabuleiro global.
O Brasil reúne ativos concretos: matriz energética relativamente limpa, liderança em biocombustíveis, tecnologia aplicada ao campo e capacidade de alimentar parte relevante do planeta. Ainda assim, essa força não se traduz, de forma consistente, na percepção construída pela mídia internacional e por parte da opinião pública. Ora o setor é reconhecido como potência econômica, ora é enquadrado exclusivamente pela lente da pressão ambiental.
“Comunicação, porém, não é eco. É ponte”
Parte desse problema é externo. Mas parte também é responsabilidade do próprio agro. Nos últimos anos, o setor foi progressivamente politizado e é preciso reconhecer que os próprios produtores, lideranças e entidades
contribuíram para isso ao não ocupar de forma estratégica e consistente os espaços de diálogo público. Muitas vezes falando apenas para dentro da própria bolha, entre aqueles que já concordam com ele.
Comunicação, porém, não é eco. É ponte. Sem presença constante no debate público, sem capacidade de dialogar com a sociedade urbana, com a academia, com organizações sociais e com formadores de opinião, o agro deixa um vazio. E, em política e reputação, vazios nunca ficam desocupados.
Um episódio recente ilustra esse desafio. No início de 2026, o terminal da Cargill em Santarém, no Pará, foi ocupado por grupos indígenas em protesto contra um decreto federal que previa estudos para concessões
hidroviárias na Amazônia. Mais do que o conflito em si, chamou atenção a ausência de uma reação articulada do setor no debate público. Um parceiro importantíssimo e sério ficou à deriva. Mesmo existindo argumentos técnicos relevantes, como o fato de que o transporte hidroviário emite menos carbono, consome menos combustível e é amplamente utilizado por grandes economias,eles pouco chegaram à sociedade.
Nada disso elimina a necessidade de diálogo permanente com comunidades locais e povos originários. Mas quando a narrativa técnica não ocupa espaço, o debate tende a ser conduzido apenas no campo político e
emocional. E o governo se aproveitou disso.O agronegócio brasileiro precisa aprender com esse episódio. Não se
trata de confronto, nem de retórica inflamada. Trata-se de presença. Defender argumentos técnicos com serenidade, ocupar espaços de diálogo, construir pontes com a sociedade e participar de forma estratégica dos debates que moldam percepção pública. Sempre com firmeza, mas sem violência e sem soberba.
Fortalecer a reputação do setor, portanto, deveria ser agenda nacional.O Brasil que dá certo não está apenas no pódio; está no campo, na ciênciaaplicada ao solo, na energia renovável e na capacidade de produzir em larga
escala sob pressão climática. Mas, no mundo contemporâneo, produzir bem já não é suficiente. É preciso também explicar, dialogar e influenciar.
Quando o agro brasileiro ganha reputação, o Brasil ganha influência. E,em um mundo que busca segurança alimentar e energética, quando o Brasilganha influência, todos ganham.
Maurílio Biagi Filho, empresário do setor sucroalcooleiro







