Olhando para trás, recebe ares de ficção a cronologia dos acontecimentos relacionados à pandemia do coronavírus e seus efeitos nas rotinas do mundo corporativo. Somada à transformação repentina dos modelos de trabalho, houve ainda um segundo e impactante fenômeno: o crescimento exponencial no volume e no compartilhamento de informações.

Pautas e rotinas diárias das atividades operacionais se fundiram, em um mesmo ambiente – o do home office –, a uma avalanche de outros conteúdos de interesse geral: notícias sobre a transmissão do vírus, número de casos, mortes, medidas de isolamento etc.

Na confusão de dados e fatos, surgiu ainda um ambiente fértil para a proliferação de uma das principais mazelas desse segmento: as correntes de informações falsas.

Em meio a esse conflito, entre a condução dos negócios e uma massa de colaboradores fragilizados, as estratégias de comunicação interna exerceram importante papel na organização dos fluxos e na humanização das relações profissionais.

“Quando as informações em excesso dos mundos externo e interno impactam as pessoas, assim como foi no assunto da covid, o que temos a fazer é passar tranquilidade e transparência em canais oficiais da empresa, criando conexão e credibilidade com as nossas pessoas”, observa a Employer Branding Manager da CI&T, Aline Limão.

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Comunicação digital e descentralizada

Durante o período de isolamento social, a CI&T potencializou dinâmicas que já estavam em andamento em suas atividades, com um modelo de comunicação mais digital e descentralizado. Nesse contexto, cada área cuida de suas ações e mantém o compromisso de comunicar as etapas de suas iniciativas – e, com a pandemia, cultivou-se um pilar adicional a esse processo, o da segurança.

“Foi criado um grupo multidisciplinar que atuou à frente do assunto e eles fizeram todas as comunicações na intranet com transparência, clareza e criando uma canal aberto com as pessoas”, explica. Para que elas tirassem dúvidas, foi oferecido um chat, onde poderia falar com a equipe à frente de todo o trabalho ou, então, em sessões de dúvidas abertas com a alta liderança.

O diretor de Comunicação Corporativa e Relações Públicas da Nissan, Rogério Louro, relata que o fluxo operacional de comunicação interna da companhia teve grande aumento. “Além de tudo o que já tínhamos, somou-se o conteúdo da pandemia e as orientações para que as pessoas passassem a vivenciar, da melhor maneira, o trabalho remoto”, diz.
Um volume que, segundo o executivo, continua elevado, tratando de temas como vacinação e saúde, tanto física quanto mental.
“Há ainda cuidados com temas como as fake news e a polarização – o grande desafio é dosar a informação para não gerar o excesso, ou a pessoa não consegue nem trabalhar e nem entender o que está acontecendo”, pontua.

Ao investir em comunicação interna, toda empresa precisa, primeiramente, estudar o seu público interno e avaliar que mecanismos e ferramentas funcionam melhor, ou seja, o tipo de comunicação, para ser eficiente ou não, depende do perfil da audiência. Essa é a opinião da gerente de Comunicação Interna e Responsabilidade Social da MetLife no Brasil, Thais Catucci.

Na empresa de serviços financeiros, por exemplo, as mídias mais “tradicionais”, como e-mail marketing, funcionam bem e ajudaram a comunicar todas as ações desenvolvidas pela empresa em prol do combate à covid-19. Mas também houve investimentos em conteúdos e formatos diferentes.

“Temos uma rede social interna, onde compartilhamos conteúdos de forma mais ‘livre’ e descontraída, trazendo dicas de filmes, livros e séries e abordamos conteúdos relacionados às datas comemorativas e de conscientização”, exemplifica.

Além disso, traz bons resultados o recurso de mensagens pop-up, alertas que trazem avisos e lembretes pontuais, aplicados para fazer call to action.

Integração das equipes

Nas atividades diárias da Justiça Federal de São Paulo, os primeiros momentos das medidas de trabalho remoto foram conduzidas nas telas de um aplicativo de compartilhamento de mensagens, via smartphone.

“A pandemia pegou todos de surpresa, então tivemos duas situações. Num primeiro momento, essa foi a forma rápida e eficiente, já que era uma ferramenta popular e de uso geral”, conta o diretor de Comunicação Social do órgão, Hélio Cesário Martins Junior.

Com o passar do tempo e a consolidação das novas rotinas, foi selecionada uma solução tecnológica mais completa, que se transformou em um hub de ferramentas que possibilitaram reuniões e envio de arquivos. “Passado o susto inicial, recursos que centralizam soluções em uma única interface, tendem a ser mais produtivos para as equipes no geral”, afirma.

Em 2019, a MRV implantou uma plataforma de comunicação e colaboração interna que deu voz aos colaboradores em todas as esferas. “Ela permitiu a criação dos mais diversos tipos de grupos e espaços de troca, para a colaboração das equipes”, detalha a coordenadora de Comunicação Interna da MRV, Juliana Mello.

Do ponto de vista de organização, o ambiente virtual define que as notícias corporativas sejam publicadas pelos colaboradores da área responsável pelo assunto em questão. “Isso empodera e, ao mesmo tempo, aumenta a responsabilidade das áreas e dos seus colaboradores – criou-se um ambiente que favorece a transparência e o compartilhamento de práticas”, pontua.
O fluxo de interações da companhia, que envolve também profissionais que atuam em canteiros de obras, cresceu em números. “Passamos de 80 mil mensagens mensais no chat corporativo para 2 milhões – hoje estamos estabilizados num patamar de 1,8 mi”, revela.

Agilidade sem perder qualidade no conteúdo

Para Louro, da Nissan, no primeiro momento, com as mudanças no regime de operações, houve dificuldades e a necessidade de se emitir um volume muito grande de informações e dados aos colaboradores.

Atualmente, comenta, existe um direcionamento em dividir e dosar, de forma estratégica, as mensagens nos mais diversos meios, como apps de mensagem, e-mail, videoconferências, entre outros. “Existem muitas opções e é preciso saber utilizar o que é, realmente, relevante – vídeo, por exemplo, as pessoas gostam, mas não é possível enviar 500 deles”, compara.

Autonomia e responsabilidade foram os eixos elencados pela CI&T para conseguir acelerar os processos comunicativos, mantendo a eficiência dos conteúdos. “Não tem como sermos ágeis se dependemos de um enorme fluxo de aprovação, e que nem sempre quem aprova é quem está de fato skin in the game (assumindo os riscos da situação) na iniciativa a ser comunicada”, aponta a gerente, Limão.

Para priorizar a qualidade, a companhia promove guias de comunicação, incluindo práticas do tipo: como usar a intranet, como fazer comunicações mais objetivas, como passar sua mensagem, como ter uma linguagem inclusiva, entre outros tópicos. “Acreditamos na formação das pessoas”, reforça.

Para a diretora de Comunicação Corporativa e Responsabilidade Social da Claro e Vice-presidente de Projetos do Instituto Claro, Daniely Gomiero, é fundamental garantir que a comunicação chegue onde o colaborador está – no seu posto de trabalho, seja no escritório, em casa ou junto às equipes em campo, de forma direta e assertiva.

“Ser a maior fonte de informação das pessoas. Não há maior recompensa para uma equipe de Comunicação Interna do que alcançar este patamar”, pontua a executiva, destacando o fato de vivermos numa época onde não se falta notícia. “E é justamente esse o grande resultado obtido pela Claro”, cita.

Juliana Mello, da MRV, relaciona esse tema à rapidez como uma informação pode virar notícia nos dias de hoje – inclusive pelo fato de que as áreas têm bastante autonomia para gerar e publicar as notícias na plataforma utilizada pela empresa. “Nos grupos oficiais, que são moderados pela equipe de comunicação interna, há um fluxo de aprovação que passa por nós, onde é feita uma análise criteriosa do conteúdo”, detalha.

Dentre as avaliações feitas pelos gestores, estão, por exemplo, se o assunto está conectado com algum pilar ou projeto estratégico para a companhia; o quanto será valorizado pelos colaboradores que formam a audiência daquele grupo; se tem camadas de informação que serão mais valorizadas por audiências específicas – “o nosso papel vai ficando cada dia mais consultivo”, cita.

Ações de engajamento

Temas que geram impacto nas rotinas dos empregados foram a tônica da “Hora do Cafezinho”, iniciativa da Metlife que gerou engajamento dos times. “Trazíamos especialistas para falar de assuntos como qualidade de vida, alimentação saudável e saúde mental, que foram os de maior audiência”, explica a gerente.

Mesmo fora do ambiente presencial, garante, as discussões envolveram pilares de responsabilidade social e fizeram com que os colaboradores não apenas se envolvessem como se sensibilizassem.

Para Martins Junior, da Justiça Federal de São Paulo, no período foi possível presenciar bons e maus exemplos de integração. “Todas as iniciativas produtivas tinham em sua essência algo em comum: confiança no trabalho e senso de propósito”, ressalta.

Para o diretor, independente da ação, quando é dada autonomia para realização de determinada tarefa, isso valoriza o colaborador e ele se engaja. “Se pudermos somar a isso um senso de propósito, indicando que aquele trabalho irá influenciar em determinado resultado, isso torna a atividade ainda mais atrativa”, conclui.

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