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Seis em cada dez municípios brasileiros são considerados desertos de notícias, ou seja, lugares espalhados pelo país onde não existe atuação do jornalismo. São aproximadamente 34 milhões de pessoas sem acesso à informação de interesse, sobre o lugar onde vivem. Os dados foram divulgados na quarta edição do Atlas da Notícia, realizado em 2020 pelo Instituto para o Desenvolvimento do Jornalismo (Projor) – mantenedor do Observatório da Imprensa – em parceria com o Volt Data Lab.

A pesquisa mostrou que o jornalismo impresso segue em crise, apontando o fechamento de 272 veículos de comunicação no ano passado. O resultado, no entanto, esconde nuances importantes de serem observadas, como destacaram Francisco Belda, diretor do Projor, e Sérgio Spagnuolo, diretor do Volt Data Lab, em conversa mediada por Ricardo Gandour, professor da ESPM, no 3º Fórum de Jornalismo Regional e Comunitário, promovido pela plataforma Negócios da Comunicação.

“Mais do que quantificar os dados de abertura e de fechamento de veículos no Brasil, nós precisamos colocar isso em perspectiva.” O fazer jornalístico, segundo Belda, sobretudo em âmbito local e regional, está cada vez mais atomizado, de forma que se encontra cada vez mais o conceito de “eupresa”, ou seja, o jornalista que se organiza em uma estrutura simples para abastecer uma localidade com notícias.

Nessa atividade, também há o risco de que esse espaço acabe sendo ocupado por pessoas que não são jornalistas, mas empresários ou políticos, que “mimetizam as formas do jornalismo, travestindo seu poder de uma forma jornalística”. E aí entram em jogo também a ética, a acurácia e o rigor de apuração do jornalismo nesses locais.

Todos esses elementos estão mais ligados ao propósito do que ao formato do que se chama de jornalismo. “É uma mentalidade, um modo de fazer”, defende Gandour. Até porque, lembra Sérgio Spagnuolo, “se a gente considerar o formato, a gente acaba considerando vários sites que têm produzido desinformação”.

Fechamento de veículos

O fechamento de veículos poderia levar à inferência de um sumiço da atividade jornalística. Mas pode não ser bem isso. “Não significa um fechamento necessariamente, pode ser uma migração de impresso para online, por exemplo”, explica Sérgio.

De fato, mesmo com o encerramento das atividades de redações do impresso, há um aumento real online. Foram 1.170 novos veículos nativos digitais incorporados à base, a maior parte deles na região Nordeste do país. O registro desses novos meios digitais levou à redução do número de desertos em cerca de 5,9% em relação à edição anterior do Atlas.

Para formular a atual pesquisa, foi feita uma qualificação da base do Atlas, com a atualização das informações dos veículos que constavam, mas também agregando novos dados. Os desertos de notícias se tornaram foco especial e, para isso, foi utilizado o software CrowdTangle. Mesmo com o crescimento dos veículos online, Gandour considera preocupante que em algum momento a hierarquização do noticiário das últimas 24 horas por meio do “aglutinador papel” deixe de existir e que isso se reflita no próprio método jornalístico. Já Belda não acredita que isso será um problema. “Essa hierarquização do noticiário que tradicionalmente está no impresso certamente migrará para outros formatos. O bom jornalismo independe do suporte”, diz.

Outra característica que preserva a organização e a sumarização inerentes ao impresso é o fato de as publicações digitais serem nichadas. “Você tem poucos veículos online que têm essa pretensão de cobrir tudo, e o jornalismo praticado no digital é muito mais com um escopo específico. Acho que vale a pena levar em conta as estratégias usadas pelos veículos digitais”, comenta Sérgio Spagnuolo. “Mais do que o suporte nós devemos preservar a qualidade do jornalismo.”

FORÇA NAS REDES

Diante do crescimento da presença digital dos veículos de comunicação e, consequentemente, a diminuição, embora ainda tímida, dos desertos de notícias, é possível enxergar uma tendência que pode povoar ainda mais esses espaços vazios: as redes sociais e o jornalismo feito em parceria com a população regional.

Esse tema foi debatido por Samir Trad, diretor do jornal de bairro SP Norte, e Luciane Viegas, diretora executiva de jornalismo da EPTV, afiliada do Grupo Globo no interior de SP e sul de Minas Gerais. A conversa aconteceu durante o 3º Fórum de Jornalismo Regional e Comunitário, no painel “O novo jornalismo local: Como a mudança no consumo e produção de conteúdo tem fortalecido as comunidades”, com mediação do jornalista Luiz Nascimento, coordenador de afiliadas da rádio CBN.

“A internet trouxe uma mudança muito radical para a TV, mas especialmente as redes sociais. As pessoas passaram a ser produtoras de vídeos, e hoje denunciam com facilidade e com uma força muito maior. A gente chega a ter um telejornal com 40% de conteúdo produzido pelo telespectador.” São cerca de 800 mensagens recebidas por dia somente na região de Campinas.

E essa digitalização também leva a mudanças radicais no próprio formato físico dos veículos e da demanda pelo conteúdo. Samir Trad, após a quarentena imposta pela pandemia de Covid-19, optou por encerrar a edição impressa do jornal e apostar nos meios digitais. “Nós tomamos a decisão de colocar todos os nossos esforços na internet, nas redes sociais e, mais recentemente, numa tevê web. Com isso, observamos um aumento de mais de 150% no acesso”, explica.

Essa foi, inclusive, uma mudança de estratégia para atrair mais anunciantes, cujas receitas também foram prejudicadas pelo novo coronavírus. “Tivemos de nos reinventar”, completa.

Dinamismo, precisão e futuro

Apesar das mudanças na seara tecnológica, os fundamentos da prática jornalística, como verdade e precisão, precisam se manter, embalados por um dinamismo crescente. “Contextualizar as notícias de uma forma mais dinâmica e resumida foi uma demanda do nosso público”, pontua Trad.

“Temos que criar cada vez mais canais para ligar as pessoas ao jornal, afinal somos uma ferramenta de utilidade pública, de prestação de serviços. Muitas vezes o problema na comunidade se perpetua e não há uma ação do poder público. Os veículos servem como alavanca para resolução desses problemas.”

E a Covid-19 trouxe ainda mais desafios. “A pandemia mudou a dinâmica da gravação”, detalha Luciane. “Nós fizemos até tutorial para ensinar as pessoas a gravar seus próprios vídeos, porque a gente passou a necessitar desse trabalho do telespectador ainda mais.”

Local e hiperlocal

Nem os números da crise, tampouco as dificuldades externas que teimam em atrapalhar o trabalho jornalístico desmotivam Samir Trad e Luciane Viegas, que creditam ao local e ao hiperlocal a importância da sobrevivência deste segmento da informação.

“As pessoas estão mais interessadas no que acontece no seu entorno”, diz Trad. “O jornalismo regionalizado é muito importante, e as secretarias de comunicação e as agências de publicidade precisam perceber isso, valorizar o jornalismo regional.”

Luciane concorda. “As pessoas vão buscar cada vez mais informações na porta de casa”, pontua. “Esse jornalismo terá vida longa.”