Comecei minha carreira em 1997, como estagiário de comunicação no antigo Unibanco, cuja sede ficava na avenida Eusébio Matoso, em Pinheiros, bairro movimentado aqui de São Paulo. Eu era estudante de jornalismo na PUC, e na época morava a uma quadra da faculdade, percurso que fazia a pé em três ou quatro minutos.

Quando comecei a estagiar no banco, passei a usar carro diariamente e a entender o que era o trânsito da cidade. Já formado, fui para a Natura, que até o início dos anos 2000 tinha sua sede em Santo Amaro. Passei a enfrentar um percurso quatro ou cinco vezes mais longo do que o que fazia até o banco. Me lembro de mais de uma vez ter parado no meio do caminho, em um shopping na Marginal Pinheiros, para jantar e esperar o trânsito acalmar.

Quando a empresa se mudou para Cajamar, a cerca de 30 quilômetros da minha casa, o trânsito passou definitivamente a fazer parte da minha vida. Não parei para contar quantas horas passei dentro do carro nos últimos 23 anos, indo e voltando do trabalho, mesmo após ir para o Citi, na Av. Paulista – bem mais perto de casa –, mas imagino que foram milhares, tempo que custou caro para mim, para a minha família e também para as empresas em que trabalhei.

Quebra

Essa rotina de 9 a 10 horas no escritório e mais um par de horas no carro foi quebrada, sem aviso prévio e de forma mandatória, pela chegada da covid-19. Acertadamente, as principais empresas do país colocaram seus funcionários administrativos em trabalho remoto, ainda que de forma improvisada inicialmente, imaginando que em um ou dois meses as coisas voltariam ao normal. Isso foi em meados de março, e de lá para cá, nunca mais pisei no escritório do Itaú Unibanco no Jabaquara, onde trabalho atualmente.

Estou há mais de três meses em casa, e algumas coisas já ficaram bem claras para mim. Em primeiro lugar, apesar do meu receio inicial de perder o foco, percebi que trabalhar concentrado, nessas condições, era apenas questão de costume e alguma disciplina.

Minha segunda conclusão é que o escritório pode ser bacana e confortável, mas nenhum ambiente nos deixa mais seguros e à vontade do que a nossa casa – se deixar, algo está errado. Nada como usar uma cadeira escolhida por mim, regular o ar-condicionado na temperatura que eu gosto, sentar no meu sofá nas pausas do trabalho, usar o meu banheiro e ver meus filhos quando quiser.

Produtividade no home office

Terceira constatação: o fato de eu não ter de me deslocar quase 30 quilômetros por dia entre ida e volta aumenta bastante a minha produtividade – menos tempo no trânsito, menos estresse e mais tempo no computador, trabalhando. Hoje, acordo, tomo o meu café com calma, dou uma olhada geral no que saiu na imprensa e sento na minha mesa para trabalhar, ainda com o café quentinho na xícara.

Quarta conclusão: é um equívoco achar que é necessário ir ao menos um dia por semana ao escritório para participar de reuniões; esse dia na empresa de fato é necessário, mas para fazer relacionamento. A necessidade que sinto hoje por estar trabalhando exclusivamente de casa é a de interagir com as pessoas e manter o relacionamento estreito para que a confiança e a parceria também sejam preservadas.

Reuniões eficientes

A minha quinta conclusão, e esta foi uma grata surpresa, é que, apesar das limitações técnicas das ferramentas de comunicação remota – ou talvez graças a elas –, as reuniões têm sido bem mais objetivas e produtivas do que presencialmente, a começar pela pontualidade. Não há atrasos em reuniões online, assim como não há espaço para conversas paralelas e pessoas falando ao mesmo tempo. Passamos a ouvir mais e a esperar a nossa vez de opinar.

É claro que, em razão da contingência causada pela pandemia, que colocou meus filhos para estudar em casa e me forçou a liberar temporariamente a pessoa que nos ajuda nos afazeres domésticos, nem tudo são flores neste momento. Conciliar a rotina da casa, a demanda dos filhos e o trabalho é um enorme desafio, mas também é algo passageiro, ainda que a nova normalidade deixe como legado alguns desses ingredientes. Fato é que, tirando o perrengue da quarentena, o home office tem sido uma ótima experiência, e tudo indica que sobreviverá à covid-19.

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Paulo
Sampaio

Paulo Sampaio é jornalista e gerente de Comunicação Corporativa e Reputação do Itaú UnibancoMais artigos