A clássica teoria dos freios e contrapesos do Direito, elaborada no século 18 por Montesquieu, pode ser glosada ao que ocorre no mundo atual: a globalização tem como reverso da moeda o despertar da comunicação no âmbito do local e regional.

Se o cidadão hoje vive a realidade e as consequências do que ocorre na sociedade global, com terremotos, naufrágio de navios de imigrantes, drones destruindo refinarias de petróleo na Arábia Saudita, ele busca a contrapartida no sentimento de pertencer a seu local. O jornalista americano Jeff Jarvis, uma referência na comunicação digital, escreveu sobre o fim dos meios de comunicação de massas: ou seja, só existirão veículos locais e regionais.

A discussão é mesmo antiga: jornalismo cidadão (como quer o pesquisador espanhol Manuel Castells), jornalismo público ou social (como prefere o professor de Jornalismo da USP Manuel Carlos Chaparro)? Mas qualificar o jornalismo pode ser perda de tempo. Se é bom jornalismo, é cidadão, comunitário, público, regional.

Em seu livro “O poder da comunicação”, Castells faz alguns comentários pertinentes, dos quais vale destacar dois: a) A comunicação que leva as pessoas a mudar e a agir é a que vem com o toque da emoção – e ele cita a teoria da inteligência emocional de António Damásio. Sem emoção e a vontade de mudar o que clama por transformação, a comunicação se torna fria e não engaja; b) Essa comunicação é uma bandeira para jovens, hoje os “nativos digitais”, que são os que têm a missão de transformar e revolucionar.

A reportagem da revista Negócios da Comunicação recolheu alguns depoimentos de quem põe a mão na massa para fortalecer essa “Comunicação que cria vínculos” durante a segunda edição do Fórum de Jornalismo Regional e Comunitário, promovido pela plataforma NC em parceria com o Cecom, na Unibes Cultural. Confira a seguir:

A notícia chega primeiro
Gustavo Poloni, diretor de parcerias de notícias do Twitter para a América Latina, explica que a rede social de microblogging é o que está acontecendo agora, e o que difere de outras, como o Facebook e o Instagram, é o fato de o Twitter ter como missão servir a conversa pública, promover debates acerca de assuntos que interessam não apenas determinado público, mas sim a todos que procuram estar a par do que acontece neste momento.

“A preferência da audiência gira em torno de assuntos jornalísticos, de informação e não apenas de entretenimento. Os dados comprovam que as notícias chegam a essa plataforma digital três vezes mais rápido que em outras redes. Foi o que aconteceu com a tragédia de Brumadinho, com o tiroteio que aconteceu em uma escola em Suzano, e um dos casos mais recentes, o sequestro na ponte Rio-Niterói, para mostrar que as primeiras informações sobre esses acontecimentos surgiram primeiro no Twitter: prova de que as informações chegam primeiro nessa plataforma”, diz Poloni.

Facebook e as notícias locais
“Acreditamos que o jornalismo de boa qualidade começa localmente, pois une a comunidade em torno de temas próximos a ela, ajudando as pessoas a entender melhor assuntos que são importantes para elas e que realmente afetam suas vidas”, diz Maíra Carvalho, gerente de parcerias estratégicas de mídia do Facebook.

Segundo ela, a leitura de notícias locais está diretamente relacionada ao engajamento cívico, pois faz com que as pessoas se sintam mais próximas da comunidade. “Quem sabe o que está acontecendo a seu redor é mais propenso a se envolver em temas e fazer a diferença”, ressalta.

Maíra conta que para atender a essas comunidades locais, as redes sociais podem ser importantes ferramentas, pois ajudam jornalistas a se conectarem diretamente com suas audiências. Através dos Grupos do Facebook, por exemplo, esses profissionais podem pedir feedback de suas reportagens, encontrar histórias e promover discussões sobre os temas que importam para as comunidades próximas.

As ferramentas de vídeo também contribuem para essa aproximação. Ela sinaliza que, com o Facebook Live, muitos jornalistas têm encontrado uma forma de falar em tempo real com as suas audiências e receber ao vivo também o retorno e a participação das pessoas sobre diversos temas. Esses são apenas dois exemplos de como a plataforma consegue colocar nas mãos dos jornalistas ferramentas que os aproximam de suas comunidades.

“Passamos boa parte do ano passado trabalhando com parceiros de diferentes tamanhos, desde veículos locais até os que atuam nacionalmente, para entender melhor as notícias no Facebook e também os desafios enfrentados atualmente pelo jornalismo e pelas organizações de notícias.

Sabemos que os veículos menores e locais são os que mais precisam de recursos. Por isso, no início do ano anunciamos um investimento global de US$ 300 milhões em três anos em iniciativas de apoio a notícias locais. No Brasil, estamos realizando o Acelerador de Notícias Locais, um programa que tem o objetivo de ajudar 10 veículos de diferentes regiões do País a tornar seus modelos de negócio mais sustentáveis. No ano passado, em parceria com a Abraji, apoiamos o treinamento de mais de 1.000 jornalistas em 22 diferentes estados”, conta.

Google aposta no jornalismo
Rafael Corrêa, head de Comunicação do Google Brasil, reforça que o jornalismo ocupa um importante lugar na plataforma Google. “É importante para os veículos estarem conosco, pois dessa forma as suas notícias recebem a visibilidade que merecem”, diz.

Há diversas iniciativas da plataforma em inserir o jornalismo e a interação com os usuários. Como o recente projeto “Desafio da Inovação”, que financiará ideias jornalísticas. “A relevância que o jornalismo tem tido nos últimos anos na plataforma, com o crescimento da audiência no canal YouTube, e a acessibilidade que milhões de usuários têm para chegar às notícias de diversos meios de comunicação, muitas vezes em tempo real”, diz Corrêa.

Proximidade e estereótipos
“Quando afirmamos que a ‘comunicação cria laços’ estamos falando da essência da comunicação: tornar comum, compartilhar e mediar. Para narrar o local, ninguém melhor do que os que vivem e mediam a linguagem do local”, fala José Geraldo de Oliveira, professor da Unip e consultor da TV Cultura.

Ele aponta duas experiências: a Agência Mural da Periferia, que iniciou em 2010 como um blog de um coletivo, tem como missão “minimizar as lacunas de informação e contribuir para a desconstrução de estereótipos sobre as periferias da Grande São Paulo. E o Jornal Gente, que atua desde 1997 na zona oeste de São Paulo. “O que eles têm em comum? Narrativas do cotidiano local. Pode-se a princípio usar o discurso do duelo de Davi e Golias, a grande mídia contra a “mídia pequena”, mas aqui não se trata disto e sim da essência da comunicação. Criar laços”, diz.

Contato direto com o cidadão
Com a crise, muitos jornais diminuíram as redações, outros fecharam as portas. Muita apuração in loco deixou de ser feita por falta de estrutura e financiamento. E na contramão desse panorama econômico, o leitor exige uma velocidade de informação instantânea. O jornalista enfrenta essas dificuldades, mas ao mesmo tempo recebe informações em tempo real de vários pontos (sejam eles de fontes oficiais, ou dos próprios leitores), em várias plataformas diferentes como WhatsApp ou Facebook.

“É esse contato mais direto que proporciona ao leitor informar sobre um problema que atrapalha a vida daquela comunidade, como uma rua sem asfalto, em que ônibus de transporte público e escolar atolam, ou ainda árvores que precisam de poda e que em dias de ventos fortes provocam a queda de energia. São problemas tidos como “pequenos” para a imprensa, mas que para o morador de uma comunidade periférica é de importância total”, explica Aline Pagnan, coordenadora das edições online do Jornal da Região, de Jundiaí.

O Jornal da Região tem mais de 320 mil seguidores e recebe diariamente mais de mil mensagens, seja de leitor querendo agradecer a equipe médica que o atendeu em um hospital público, ou outro que reclama da demora no atendimento da mesma unidade de saúde.

“Recebemos de forma quase instantânea fotos de situações de emergência para o site e a página do jornal no Facebook com informações de alguma colisão ou atropelamento no trânsito que provoca tráfego intenso em determinada parte da cidade, ou incêndio em uma mata”, diz.

Relevância na era digital
Na era da internet, se quiser sobreviver, a imprensa regional precisa se reinventar. Embora as TVs e rádios locais também sintam o impacto brutal da concorrência com as novas mídias, os veículos impressos sentem seus efeitos de forma mais intensa e devastadora.

A palavra-chave para compreender esse movimento é relevância, como avalia Jeferson Martinho, diretor do Portal Visão Oeste, de Osasco. “Em grande parte do país com veiculação semanal ou mensal – de fato, poucos são os pequenos jornais diários, mas mesmo esses são ameaçados pelo problema – a mídia regional tradicional infelizmente vem se tornando cada vez menos relevante. Sobretudo por uma questão de falta de velocidade e distanciamento da realidade de seu leitor”, aponta.

Ele ressalta que o cidadão conectado, de smartphone na mão, tem acesso instantâneo a uma infinidade de conteúdos. “Estou convencido de que só irão sobreviver a esse novo mundo da informação os veículos que souberem aproveitar aquilo que os tornou importantes na sua região. Seu cuidado na apuração de notícias, sua proximidade e diálogo com a comunidade local.É uma nova fase da notícia como prestação de serviços, adaptada a essa nova realidade digital, que funciona na velocidade da banda larga e em breve do 5G”, conclui.

Deserto de notícias
Na última década, os recursos reduzidos dos meios de comunicação, a velocidade de publicação exigida pela revolução tecnológica e a crescente complexidade do contexto urbano fizeram com que o noticiário na capital paulista, a maior cidade da América do Sul, se concentrasse cada vez mais no “fácil, rápido e simples”.

Ou seja, as periferias ficaram de fora da cobertura de boa qualidade ou foram mal representadas apenas por relatos de atos violentos, pelas estatísticas de pobreza e em uma ou outra atração cultural. E se as periferias foram negligenciadas, as outras cidades da região metropolitana, também distantes desse “centro”, só entraram no fluxo de notícias se uma greve de ônibus ali impediu os trabalhadores de chegarem pontualmente aos bairros centrais da capital.

O jornalismo local e regional tem o desafio de preencher esse deserto de notícias que há de determinadas regiões e periferias. A proposta é trazer outras questões além do que é pautado pela grande mídia, como violência e assistencialismo. É por meio da cobertura hiperlocal que se contam histórias que ninguém mais conta, que trazem as questões que precisam ser resolvidas nas regiões na área da saúde, educação, mobilidade, entre outros.

A Agência Mural de Jornalismo das Periferias tem como missão minimizar as lacunas de informação e contribuir para a desconstrução de estereótipos sobre as periferias da Grande São Paulo. “Nosso objetivo é crescer, e mudar a forma como os 21 milhões de cidadãos de nossa Grande São Paulo enxergam e se relacionam com a região onde moram.

Produzir e publicar informações que sejam relevantes, úteis, para que todos possam se sentir parte da mesma realidade e capazes de transformá-la. O jornalismo reencontra-se aqui com sua missão original: o interesse público. E este jornalismo fortalece uma sociedade – e a democracia”, explica Cíntia Moreira Gomes, cofundadora e editora da Agência Mural da Periferia.

Ela explica que os correspondentes, jornalistas, comunicadores e blogueiros residentes dos bairros e cidades que cobrimos, são especialistas em suas regiões e usam as ferramentas do jornalismo de boa qualidade para contar as histórias que ninguém conta.

Desde 2010 a Agência Mural busca formas e parcerias para disseminar as notícias sobre as periferias da cidade e da Grande São Paulo. “Temos parceria com a Folha de S.Paulo, Rede Nossa S. Paulo, Global Voices, TV Bandeirantes, entre outros. Desde março, temos um espaço para financiamento no Catarse (https://www.catarse.me/periferias), com a arrecadação mensal destinada à sustentabilidade da produção de conteúdos e projetos”, conta.

A mais nova parceria é com a TV Band, com o quadro ‘Giro da Quebrada’, que três ou mais vezes na semana tem ido ao ar no programa Bora SP, com vídeos produzidos pelos correspondentes locais sobre a região em que vivem. Estamos atingindo a proposta de retratar e levar a visão de quem conhece a realidade de cada periferia, além de contar histórias diferentes do que a cobertura do dia a dia costuma mostrar.

“O conteúdo tem tido bons resultados de impacto que levaram a resoluções, como a história de São Miguel Paulista, em que o subprefeito ligou prometendo verificar a questão do wifi que não chega à praça. E quando o problema for resolvido, terá um novo giro, mostrando a solução, e, no ar, apresentadores do jornal comentando o impacto”, exemplifica Cintia.