Se tudo é prioridade na comunicação interna, o que é realmente estratégico?

Quando falta priorização, a comunicação interna deixa de orientar escolhas, transferindo ao colaborador o peso de decidir o que merece atenção

Se tudo é prioridade, o que realmente não pode esperar? A pergunta parece simples, mas expõe uma tensão que atravessa toda a experiência do colaborador – a falta de priorização, inclusive na comunicação interna. Paradoxalmente, nunca se falou tanto em prioridade, e nunca foi tão difícil entender o que vem primeiro. A consequência prática disso é menos foco e mais frentes simultâneas de trabalho disputando atenção, algo que a mídia internacional vem chamando de priority inflation, que nada mais é do que o excesso de prioridades. Hoje em dia, cada mensagem pede atenção imediata, competindo com as demais. E, no fim, transfere-se ao colaborador a tarefa de hierarquizar o que recebe, diluindo qualquer estratégia de comunicação.

Se olharmos com mais cuidado, é comum confundir excesso de prioridade com dinamismo e estratégia. Rotular tudo, ou quase tudo, como urgente pode soar como agilidade, mas geralmente revela o contrário: dificuldade de escolha e de hierarquização. Na prática, quando falta critério de priorização na comunicação interna, ela deixa de operar como bússola para se tornar uma vitrine de urgências. Quem nunca se deparou com mensagens simultâneas, múltiplas entregas críticas e uma rede interna recheada de alertas? Para quem lida com essa enxurrada de notificações, a inflação de prioridades só evidencia que a organização não consegue definir o que realmente merece destaque e por quê. O que comunicamos, e como comunicamos, tem potência de sobra para orientar decisões, desde que exista gradação clara de importância. Sem isso, o fluxo informativo intenso amplia a carga cognitiva, fragmenta a atenção e transforma o colaborador em intérprete de sinais confusos, quando deveria estar apoiado por um direcionamento claro.

Quando a urgência vira critério

Priorização na comunicação interna
Marcela Villas Bôas, da Mutiplan

Estratégia, por assim dizer, tem a ver com definição – é decidir o que vem primeiro e o que pode esperar. Por isso, excesso de prioridades representa falta de estratégia. Na comunicação interna, o efeito disso é direto: sem qualquer tipo de priorização, a área vira um amplificador de ansiedade, reproduzindo ruídos de diferentes frentes que mal dialogam entre si. Cada área chega com sua pauta urgente, seu prazo inegociável e seu pedido de destaque máximo. Administrar esse volume sempre será desafiador, mas, como sugere a gerente de Comunicação da Multiplan, Marcela Villas Bôas, a saída passa pelo amadurecimento da governança. “Isso dificulta a construção de sentido para os colaboradores”, argumenta.

Em vez de reagir à pressão dos solicitantes, a comunicação interna precisa se apoiar em critérios realmente estratégicos, com clareza sobre o que entra, quando entra e por que entra. “Com processos bem delimitados, conseguimos estabelecer critérios objetivos e uma atuação mais estratégica”, afirma Marcela. Vale reforçar: critério não engessa a comunicação; pelo contrário, qualifica o conteúdo e aumenta sua relevância. Então, o que de fato se transforma quando há governança e priorização na comunicação interna?

Critério não engessa

Segundo Marcela, muda o tipo de pergunta que orienta a decisão. Sai o automático “onde vamos divulgar?” e entra o filtro estratégico: “isso precisa mesmo ser divulgado, para quem e com qual nível de destaque?”. Nesse movimento, também se torna indispensável revisar o ecossistema de canais e definir o papel de cada um, evitando replicações mecânicas e pedidos de publicação simultânea em todos os espaços, sem qualquer diagnóstico. Esse padrão, comum e confortável, produz o que ela chama de “infoxicação”, termo trazido à tona para sintetizar o excesso de mensagens e a consequente perda de foco. Sob a lente da gestão de pessoas, vimos algo semelhante – provocado por uma comunicação truncada e falta de priorização do lado do board.

Em ambientes com múltiplas frentes, a simultaneidade é algo natural, afinal muita coisa acontece ao mesmo tempo, mas equivalência de urgência, não. Bruno Junqueira, diretor de Recursos Humanos da Petlove, chama atenção para o risco que representa a ausência de contraste de relevância. Se todas as mensagens chegam com o mesmo peso simbólico, o que, de fato, é mais urgente? O efeito disso, segundo ele, é perda de foco no que realmente move o negócio, fazendo com que as equipes apenas reajam às demandas conforme elas chegam à mesa. “Elas reagem, muitas vezes, sem critérios claros ou contexto suficiente para decidir o que vem primeiro”, pontua.

Sem contraste, não há escolha

É nesse ponto que a comunicação interna pode fazer a diferença. Ao invés de competir por atenção, ela tem alcance para orientar decisões sem alimentar ambiguidades. “Na Petlove, trabalhamos com uma hierarquização clara das mensagens e entendemos que o tom da comunicação e os canais escolhidos são peças-chave para sinalizar prioridade. Isso ajuda os times a entenderem, logo no primeiro contato, a relevância de cada tema”, explica o porta-voz.

Na prática, isso significa hierarquizar mensagens, combinando tom, canal e repetição, reconhecendo a relevância de cada tema. “Comunicar com clareza é, também, uma forma de construir confiança, mostrando que existe escolha, direção e intencionalidade por trás do que é colocado em destaque”, afirma Bruno.

Prioridade precisa ser sinalizada, não presumida

Priorização na comunicação interna
Bruno Junqueira, da Petlove

Mas, afinal, se prioridade é escolha, quem, de fato, está escolhendo o que chega ao colaborador? Para Giusepe Giorgi, diretor de RH da Pirelli para a América Latina, declarar tudo como prioritário costuma revelar evasão decisória, um movimento que elimina, do lado da organização, o conflito inerente à escolha e transfere o custo para a outra ponta. Ele é direto ao afirmar que “tratar todas as demandas como prioritárias é uma demonstração de dificuldade em hierarquizar decisões e traduzi-las em escolhas claras”. Algo que, segundo Giusepe, mostra que não se trata de um simples problema de comunicação, mas de decisão. “Por isso, é importante o trabalho interno para evoluir na tomada de decisão das prioridades.”

Não por acaso, sem hierarquia de mensagens, perde-se também hierarquia de contexto. As demandas chegam sem moldura suficiente para orientar o julgamento – e é o contexto que permite decidir bem sem precisar perguntar a cada passo. Giusepe associa a hierarquização comunicacional à construção de sentido coletivo: quando há uma ordem clara de importância, as pessoas entendem não apenas o que fazer, mas por que fazer agora. Sem isso, a execução acontece, porém de forma fragmentada. No fim, prioridade não comunicada é prioridade inexistente.

Priorizar é dar contexto

A contramedida ao priority inflation passa por devolver contexto às escolhas. Em comunicação, não se trata de falar menos, mas explicar melhor. O ponto de virada acontece quando a mensagem deixa de ser apenas um anúncio e passa refletir decisões, deixando explícito o impacto e a expectativa de ação. Então, como transformar isso em prática? Na Petlove, segundo Bruno Junqueira, o caminho começa por tratar a comunicação interna como parte da arquitetura de decisão cotidiana, e não como etapa final de divulgação – o que nos leva à priorização das mensagens. “Ela pode ajudar as pessoas a fazerem boas escolhas no dia a dia”.

Ele descreve um modelo baseado em alinhamentos recorrentes, ciclos estratégicos e conexão direta com métricas e objetivos. A lógica é simples e poderosa: quando a mensagem explica o porquê, ela reduz a ansiedade operacional. “Ao explicar não só o que está sendo feito, mas, principalmente, por que aquilo importa, ela reduz a sensação de urgência constante e traz mais segurança para a tomada de decisão”, afirma.

Contexto é o que reduz a falsa urgência

Priorização na comunicação interna
Bruno Junqueira, da Petlove

Há também um elemento mais sofisticado, e muitas vezes negligenciado, que é o tom. Nem toda mensagem pode soar igual, assim como nem toda pauta deve carregar a mesma temperatura. Bruno chama atenção para esse cuidado de calibragem: “evitamos usar sempre o mesmo tom para todos os temas”. Parece detalhe de linguagem, mas é pura engenharia de foco. Esse código ajuda o colaborador a organizar tempo, energia e esforço, três recursos que a inflação de prioridades costuma corroer primeiro. “Quando há narrativa, cadência e coerência entre o que se diz e o que se pratica, a comunicação passa a funcionar como um apoio real, oferecendo clareza, previsibilidade e senso de direção e colaboração”, resume Bruno.

Mas contexto e tom não se sustentam sem estrutura. É aqui que a governança volta ao centro do debate, agora como método operacional. Marcela Villas Bôas, da Multiplan, reforça que a priorização na comunicação interna depende de processos claros de avaliação de demanda, critérios de entrada e canais com papéis definidos. E faz um alerta importante: a área não pode operar apenas como receptora de pedidos. Precisa ocupar posição ativa junto a lideranças e tomadores de decisão para mapear temas estratégicos antes que virem solicitações urgentes. Planejamento é, também, uma forma de reduzir urgência fabricada. “É preciso estar próximo a fim de mapear assuntos estratégicos previstos, estruturando um planejamento prévio”, pontua.

O canal também comunica peso

Um exemplo citado por ela ajuda a materializar essa lógica. Ao falar da Semana do Compliance, planejada com antecedência na Multiplan, Marcela descreve uma campanha estruturada como série de streaming, com atores encenando dilemas reais, convites simbólicos e ativações presenciais. “Cada colaborador recebeu um convite simbólico, com pipoca na mesa, reforçando a ideia de ‘assistir aos episódios’, entre outras ações de ativação”, conta. Ao transformar o conteúdo em experiência engajadora, a comunicação deixou explícito o peso estratégico do tema.

Priorizar, nesse caso, foi desenhar melhor o que seria comunicado. “Sabíamos que, além de ser um assunto denso, ele demanda sensibilização, aprendizado e, muitas vezes, mudança de mentalidade por parte do público”, complementa, justificando o formato inovador. Do mesmo modo que o conteúdo comunica prioridade, a própria arquitetura dos canais também funciona como sinalizador de relevância. Em um sistema de comunicação interna com priorização clara, o “onde” importa tanto quanto o “o quê”. Ao descrever o modelo adotado na Pirelli, Giusepe Giorgi chama atenção justamente para essa dimensão, a da geografia informacional.

Grau de importância de cada veículo

Não se trata apenas de publicar, mas de posicionar a mensagem no espaço certo e com o peso certo. Cada veículo carrega, por si, um grau de urgência já reconhecido pelas pessoas. “Temos materiais que vão para mural ou TV interna, mais genéricos ou de médio prazo, e comunicados de urgência afixados junto aos relógios de ponto. As pessoas sabem o grau de importância de cada veículo”, explica.

Nesse arranjo, o próprio canal comunica prioridade. Esse tipo de classificação visível reduz ruído e cria previsibilidade interpretativa. Quando o colaborador aprende a ler o peso da mensagem pelo lugar onde ela aparece, a decisão cotidiana se torna mais rápida e menos custosa do ponto de vista cognitivo. Giusepe resume o papel da área sem rodeios: “a comunicação interna cumpre o papel fundamental de filtro estratégico, e não apenas um canal de disseminação”. E filtro, na prática, é escolha aplicada. Como ele complementa, essa estrutura “reduz ruído, traz previsibilidade e protege as pessoas de uma lógica de urgência contínua que pode comprometer a qualidade do trabalho e o bem-estar”.

Comunicação interna sem priorização gera ruído e enfraquece a estratégia

Autonomia nasce de prioridade clara

Ainda tem organização que acredita que, ao transferir o poder decisório para o colaborador, está conferindo a ele mais autonomia. Mas autonomia sem referência é, na prática, um abandono. A bem da verdade, não basta pedir que as equipes decidam mais – é preciso oferecer parâmetros visíveis de decisão. Se pensarmos bem, na prática organizacional, a falta de priorização na comunicação leva as pessoas a hesitarem. Não à toa, a gerente de Comunicação da Multiplan, Marcela Villas Bôas, observa que esse tipo de atitude costuma gerar insegurança e desalinhamento, dois fatores que corroem a autonomia. “Elas passam a ter mais dificuldade para assumir responsabilidades com confiança.”

Assim, sem saber onde colocar energia e atenção, o colaborador até age, mas com baixa confiança decisória. Por isso, na Multiplan, a comunicação interna – com a priorização devidamente trabalhada – é conectada a valores, cultura e direção de negócio. O objetivo, segundo ela, é criar coerência interpretativa entre áreas e regiões. Como ela resume, quando valores e diretrizes são comunicados de forma consistente, “as decisões se tornam mais naturais”.

Autonomia sem referência vira insegurança

Esse vínculo entre relevância e critério também não é abstrato. Marcela descreve que cada mensagem é avaliada a partir de três eixos: aderência ao negócio, alinhamento com valores e impacto nas pessoas. E, quanto maior essa convergência, maior a visibilidade comunicacional. Dessa forma, nem tudo que é novo é prioritário, assim como nem tudo que é urgente é central. “Esses critérios ajudam a avaliar o impacto real da comunicação na organização e o nível de engajamento necessário dos colaboradores”, explica, destacando que o que pesa é a conexão com o momento estratégico da companhia e o efeito concreto na vida das equipes.

Vale observar como isso se traduz na prática. Segundo ela, projetos que se conectam diretamente ao momento da empresa, como inaugurações de empreendimentos, evolução do aplicativo Multi e divulgação de resultados, recebem mais destaque. Já mudanças de processo que atravessam áreas exigem uma comunicação mais orientativa do que promocional. “Assim, as pessoas conseguem entender não apenas o que mudou, mas como isso impacta sua rotina.”

Clareza reduz dependência decisória

É dessa forma que a comunicação interna impacta profundamente a gestão de pessoas. Do lado da Petlove, o CHRO Bruno Junqueira reforça que ausência de contraste de prioridade compromete diretamente a autonomia das equipes. Quando tudo parece igualmente importante, decidir vira um risco desnecessário – é mais fácil fazer o que vem primeiro do que hierarquizar algo. Ele é direto ao associar clareza de prioridade à segurança decisória: “acreditamos que autonomia só existe quando as prioridades estão bem definidas”. A frase é estruturante ao evidenciar que autonomia não é independência total. O efeito prático dessa combinação desastrosa aparece no comportamento cotidiano.

Sem uma comunicação interna com priorização consistente, as pessoas tendem a buscar mais validação e reduzir iniciativa. “Não por falta de capacidade, mas por falta de clareza”, observa. Assim sendo, o investimento maior não é na mensagem, mas nos rituais, treinamentos e alinhamentos, isso sem falar no uso consciente dos canais de comunicação. O objetivo é desenvolver o que ele chama, na prática, de senso de urgência saudável, aquele que distingue o que é ação imediata do que é acompanhamento estruturado. “Isso ajuda os times a tomar decisões mais bem embasadas e desenvolver um senso de urgência mais saudável”, afirma.

Nem toda urgência é estratégica

Mas o que transforma uma pauta em prioritária, de verdade? Aqui entra o critério como eixo. Na Petlove, segundo Bruno, a priorização das pautas internas parte de referências explícitas, não da pressão do momento. Impacto nos objetivos estratégicos, efeito concreto no dia a dia, irreversibilidade da decisão e horizonte de tempo entram como parâmetros de leitura. E há um teste decisivo: “uma pauta só se torna verdadeiramente prioritária quando deixa claro qual decisão ou ação se espera a partir daquela comunicação”. E se não há ação esperada, há apenas informação a ser compartilhada no seu tempo. Já do ponto de vista estrutural, o diretor de RH da Pirelli, Giusepe Giorgi, acrescenta outra camada importante: visibilidade de hierarquia é o que transforma autonomia em prática sustentável.

Na prática, quando a organização explicita a ordem de importância das mensagens, oferece parâmetros claros de decisão e fortalece a confiança. Nas palavras dele, “ao tornar essa hierarquia mais visível, a organização fortalece a autonomia real das equipes”. O que, como ele bem destaca, eleva a qualidade das escolhas, aumenta o senso de responsabilidade individual e reforça uma cultura de confiança.

Priorizar é tornar a decisão visível

Quanto aos critérios a serem aplicados à priorização, ele acredita que a comunicação interna precisa considerar impacto estratégico, risco para o negócio, exigências regulatórias, impacto nas pessoas e dependência entre iniciativas. Não é apenas o que importa, mas o que gera consequência. “A priorização também deve levar em conta que os objetivos da empresa devem coincidir em grande parte com os objetivos pessoais, para que as informações tenham relevância”, complementa Giusepe.

Assim, quando o vínculo entre pauta, objetivo corporativo e decisão esperada fica explícito aos olhos do colaborador, a comunicação passa a orientar comportamentos. Essa é a diferença entre comunicar muito e comunicar para decidir melhor. No fim, em tempos de priority inflation, escolher bem o que comunicar é, talvez, a forma mais madura de cuidar de gente e de estratégia.


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