Pesquisa intitulada “Universo Trans”, realizada pela Zygon, empresa especializada em análise de dados e marketing digital, revelou que 88,6% das interações de pessoas trans no Twitter são sobre transfobia. O levantamento analisou 93 mil tweets e 5,5 milhões de interações durante cinco meses para entender os temas mais discutidos por pessoas transexuais na internet.

O estudo foi realizado em parceria com a Nhaí!, startup de entretenimento e marketing com foco na diversidade, e a Casé Fala, agência de conteúdo e curadoria de palestras

pessoas trans

A existência de uma pesquisa que verifica interações de um grupo minoritário na sociedade é fundamental. Para Lucas Reis, CEO da Zygon e Doutor em Big Data aplicada à análise de redes sociais, as redes sociais tem ocupado um espaço cada vez maior no debate público, sobre diversos temas, devido a sua acessibilidade e liberdade de postagem de conteúdo, além da popularidade. E os social media sensores possuem a capacidade de detectar as tendências logo no início.

“Por isso, mapeá-la é uma forma de detectar, em tempo real, as percepções compartilhadas por diferentes membros da sociedade. Como ainda há pouca visibilidade sobre as questões ligadas ao público trans no meios tradicionais, decidimos verificar qual o tamanho da discussão sobre o tema nas redes sociais, e vimos que ele é amplamente discutido, e há diversas abordagens diferentes nessa discussão, com grande crescimento de falas ligadas à assunção da identidade trans e a políticas de inclusão. Um mapeamento como o feito por essa pesquisa ajuda a quantificar questões ligadas a um universo que ainda é muito invisibilizado na sociedade”, afirma Lucas.

Segundo a pesquisa, 70% das pessoas trans ou travestis pretas e periféricas relatam na rede social sobre o racismo, associado a temas como Corpo e Transição, Oportunidade e Identidade.

“Com estes dados, foi possível ver as diferentes nuances sobre o que se fala online a respeito do universo trans. Há predominância, ainda, de relatos de transfobia, mas vemos como outras pautas estão em crescimento acelerado”, aponta Lucas Reis.

Identidade foi o segundo assunto mais discutido e contou com um aumento de 133% durante o período do levantamento. O termo “pronome” surge em mais de 25% de todos os conteúdos relacionados à identidade.

Identidade e Oportunidade

Apesar de Identidade ter sido o segundo ponto mais debatido, o corpo trans é um corpo objetificado e visto como um marcador social. “Além de existir uma imposição de padrão estético no corpo trans, tem também a sua objetificação e exigência de servir como um marcador social. O processo de aceitação e de assumir-se perante a sociedade é algo mais difícil para pessoas negras e periféricas”, explica Raquel Virgínia, mulher trans e fundadora da Nhaí!.

A pauta Oportunidade foi a que mais teve tweets feitos no dia 29 de janeiro de 2021, dia da Visibilidade Trans e Travesti. Durante a data, mais tweets foram feitos, exibindo uma taxa de engajamento 22% superior à média. Além disso, 31% deste grupo está em busca de oportunidade e 47% procura visibilidade.

No dia 17 de maio, Dia Internacional contra a Homofobia, Transfobia e Bifobia, data que reforça a busca por igualdade, respeito e a luta contra a discriminação e violência, houve um pico de 33 mil tweets. A participação de Ariadna Arantes, a primeira mulher trans do reality No Limite, foi também muito discutida no Twitter, devido à representatividade nos espaços midiáticos.

Segundo a pesquisa, os posts que envolvem oportunidades possuem um engajamento maior, a porcentagem fica em 22% a mais que posts sobre casos de transfobia. “Isso mostra a importância da inclusão de pessoas trans no mercado de trabalho, o quanto querem, procuram e engajam no assunto” ressalta Raquel Virgínia.

“Atualmente fala-se muito sobre a importância da diversidade, mas para evoluir é necessário ter um olhar atento e mais profundo para questões de raça e gênero, essa pesquisa colabora para a importância de avançar com essa pauta para além do mês do orgulho LGBTQIA+, precisamos evoluir e incluir essas questões estrategicamente nos negócios”, afirmam Patrícia Casé e Fabiana Oliva, cofundadores da Casé Fala.

Processos da pesquisa e o impacto no mercado

Lucas conta sobre o processo da pesquisa. O que as pessoas trans discutem no “mundo real” é amplificado pelas redes sociais, seja casos de transfobia ou o que acontece na mídia.

“Primeiro, percebemos um esforço hercúleo em não deixar passar desapercebidos casos de transfobia. Milhares de pessoas estão engajadas no esforço de não deixar naturalizar este tipo de violência. Além disso, vimos uma relação bastante grande com acontecimentos do mundo da mídia e entretenimento. Por exemplo, se uma pessoa trans é escolhida para um reality show ou se o universo trans é discutido num programa de TV, este assunto será amplamente debatido nas redes. Além disso, foi muito interessante perceber a rede de apoio online para as pessoas trans. Essa rede repercute oportunidades profissionais, dá dicas de como lidar com o próprio corpo e de como exigir e obter direitos civis. Realmente, as redes sociais são uma caixa de ressonância do que está acontecendo no mundo real”, detalha Lucas.

E a importância dessa pesquisa não para por aí. Esses dados, até então inéditos, podem impactar o mercado que não olha e não abraça a causa Trans. “Estamos falando de alguns milhões de pessoas brasileiras que estão, finalmente, assumindo sua identidade e estão preferindo se relacionar com marcas que as apoiem. São muito bem recebidas ações de inclusão, desde cuidados com questões sobre a aceitação do próprio corpo, até acesso a oportunidades profissionais. Percebemos que não há, ainda, marcas que estejam profundamente engajadas com as bandeiras deste público e, acreditamos, que as pioneiras serão abraçadas pelo público”, afirma Lucas.

Os próximos passos da pesquisa “Universo Trans”

Os próximos passos do “Universo Trans” incluem a repetição frequente da pesquisa e comparação das temáticas que estão em alta.

“Queremos divulgar e discutir amplamente os dados desta pesquisa, para enriquecer o
debate sobre o tema, inclusive, mostrando que não se trata de uma questão lateral, mas
sim de um assunto da pauta do dia e de importância primordial. Além disso, deveremos
repetir a pesquisa periodicamente, para acompanhar a evolução dos índices, percebendo
mudanças nas temáticas relacionadas a este universo rico e vasto”, revela Lucas Reis.