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Não há dúvida que a pandemia acelerou o processo de transformação digital de muitas organizações. Hoje em dia, mais de um ano depois da COVID-19 ter surgido na China, vejo pessoas mais velhas consumindo muito mais de maneira online, sendo que antes eram aquelas que morriam de medo de expor seus cartões de crédito na internet; muitos colaboradores de empresas que começaram a trabalhar remotamente e até hoje nunca viram um colega de trabalho sem ser pelas telas do Zoom ou Meets; funcionários que foram promovidos e passaram a gerir times de maneira 100% remota.

Enfim, a vida não parou, embora todos tenhamos sido extremamente afetados, e há duas linhas que definem toda essa evolução: transformação digital e adaptabilidade. E uma não funciona sem a outra.

Transformação digital: caminho sem volta

A transformação digital já é um caminho sem volta há alguns anos. Depois de trabalhar por mais de dez anos em multinacionais, decidi me aventurar no ecossistema das startups e, nesse novo mundo, logo de cara descobri uma maneira muito mais lean de se trabalhar, com técnicas e ferramentas que visam aumentar a competitividade e a produtividade.

A filosofia lean surgiu na Toyota, no Japão, com o final da Segunda Guerra Mundial. Em busca da redução dos desperdícios que acabam ocorrendo tão frequentemente nas organizações, o conceito é bastante simples: fazer somente aquelas atividades que realmente criam ou agregam valor e que o cliente esteja disposto a pagar. Em outras palavras, ao invés de sobrecarregar todo o time com mil e uma atividades, é necessário garantir um foco com metas claras e tangíveis.

Ao desenvolver projetos mais próxima de desenvolvedores de software, também aprendi bastante sobre metodologia ágil, que equilibra o “rígido” com o “livre”. Processos ágeis se adequam a mudanças, surgem graças a pessoas motivadas, entre as quais existe uma relação de confiança, e dá contínua atenção à excelência técnica e ao bom design.

Em intervalos periódicos, os squads – que são os times organizados para trabalhar em uma tarefa específica – refletem sobre como se tornarem mais efetivos, realizando ajustes no que deve ser melhorado e otimizando o comportamento de acordo com o andamento do projeto.

Laboratória

E trabalhar dessa maneira é cada vez mais bem quisto em todos os lugares, ultrapassando apenas o ambiente das startups. Um bom exemplo disso é a Laboratória, organização peruana de impacto social que busca inserir mais mulheres no mercado de tecnologia. Ao perceber um déficit entre oferta e demanda de programadores no mercado de trabalho e ver um ambiente predominantemente ocupado por homens brancos, surgiu a ideia de se criar um bootcamp totalmente “project based” e 100% focado em mulheres. A fim de incentivar uma economia digital mais diversa, inclusiva e competitiva em toda a América Latina.

Com um curso intensivo de seis meses, que tem em seu cerne a metodologia ágil, a organização já possui mais de seis anos, tendo formado mais de 2.000 estudantes que antes estavam sem perspectiva de carreira. E hoje são grandes programadoras em mais de 800 empresas em cinco países da região.

Além disso, a fundadora da Laboratória é bastante reconhecida por empoderar mulheres e ampliar a diversidade nas empresas, já tendo palestrado com nada menos que o ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, e com o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg.

A forma de se trabalhar

A forma de se trabalhar é essencial, mas também é evidente que ela per se não basta, ou seja, nada do que foi dito até aqui funciona se não houver pessoas comprometidas, que saibam trabalhar em equipe e tenham uma cultura de melhoria contínua, podendo adaptar-se rapidamente a diferentes situações e contextos.

Atuar em squads, por exemplo, significa confiar muito no trabalho do outro, dando autonomia para que a inovação possa aparecer sempre que necessário. E embora isso seja algo fácil de se escrever, sabemos que colocar tais comportamentos em prática não é tão simples assim.

O nível de adaptabilidade dos colaboradores faz toda a diferença no cotidiano e saber agir com base em números é muito importante. Mas saber mudar o rumo do projeto sempre que necessário sem “deixar a peteca cair” é ainda mais crucial para garantir a efetividade das ações. O famoso “jogo de cintura”, ou o desenvolvimento das soft skills, se demonstra cada vez mais demandado pelas organizações. Sobretudo em um ambiente de transformação digital catalisado por uma pandemia tão inesperada no mundo atual.

Para nós, comunicadores, o estudo não cessa nunca e temos que estar constantemente atualizados. E é essencial sabermos que o comportamento, muitas vezes, é o “coração” de tudo. E que saber se adaptar em um mundo em constante mudança, respeitando a diversidade e o contexto de cada um, é o que vai continuar fazendo a diferença para a construção de ambientes inovadores.

iza

Izabella
Sant'Anna

Diretora global de Comunicação da Laboratória e fundadora da IZ Comm, consultoria de comunicação focada em startups e inovação.Mais artigos