Há uma crise geral de confiança no mundo. Isso é notório. E os desacertos econômicos, políticos e sociais perpetuam a desesperança, o senso de injustiça e o desejo de mudança, principalmente nas democracias ocidentais. Nessa falta de perspectiva global, que convive ainda com uma crise de valores, de conhecimento, de saber e de falta de propósito, as pessoas estão adoecendo. Estudos como o “Edelman Trust Barometer 2017” apontam esse movimento, inclusive no Brasil, onde o termômetro da confiança mostrou queda na percepção em relação ao governo, à mídia, às empresas e ONGs.

Parece existir um cenário de desconexão entre os indivíduos e as instituições e não é coincidência que outro estudo recente, da Organização Mundial da Saúde, tenha mostrado que os brasileiros, na comparação com outros países, estão entre as primeiras posições no ranking das populações mais estressadas e deprimidas do planeta. A descrença no sistema é responsável por esses resultados negativos, reverberando ainda mais os ciclos de desconfiança e os estímulos negativos que amplificam emoções negativas como o medo, a raiva e a tristeza.

E se, na percepção dessas pessoas, as instituições estão falhando, há um risco iminente de fortalecimento de movimentos populistas, que surgem com a promessa de um melhor futuro. É o conhecido fenômeno em que se depositam as esperanças em super-heróis e salvadores da pátria. No âmbito corporativo, essa atmosfera traz mais um ingrediente. Mesmo que a confiança, em todo o mundo, tenha recuado, no Brasil ainda é elevada. A figura do CEO, por sua vez, apresentou a menor credibilidade de todos os tempos. Ele não é confiável em 23 dos 28 países do estudo, incluindo o Brasil, onde o índice relativo de confiança foi o que registrou a maior queda.

Isso traz um desafio adicional à liderança, capaz de retroalimentar ou refratar os medos sociais provocados pela turbulência global. A atmosfera negativa está gerando um passivo emocional, afetando o comportamento das pessoas, em níveis profundamente individuais, nos ambientes de trabalho. O bombardeio do noticiário e suas narrativas neuróticas sobre guerras, fluxos migratórios, terrorismo, competição desleal, corrupção, conflitos étnicos, enfermidades, tragédias de toda ordem e recessão econômica global perpetuam uma espécie de bolha patológica, uma pandemia neural. Essa expressão, cunhada pelo filósofo sul-coreano Byung-Chul Han em sua “Sociedade do Cansaço”, pode ser traduzida por doenças neuronais como depressão, síndrome de hiperatividade e a chamada síndrome de burnout, distúrbio psíquico relacionado ao estado de esgotamento físico e mental ligado à vida profissional.

Não bastasse a pressão por resultados, diante da competição global, a liderança tem o papel de não ser repetidora de sinais, precisa lidar com esse cenário negativo e energizar seu time com narrativas positivas, dentro e fora do mundo corporativo. Mantras como engajamento, competitividade, produtividade, dependendo das abordagens, podem intensificar ainda mais a pressão por resultados, a desesperança, a falta de confiança e o medo do desemprego (de ser substituído pelas novas tecnologias ou por mão de obra mais barata).

O CEO, no entanto, não está sozinho nesse dilema. Movimentos globais de reflexão e estudos no campo da chamada Ciência da Felicidade, ancorada na psicologia positiva, apontam perspectivas para se mudar modelos mentais. Pesquisas consistentes nas duas últimas décadas em instituições como Harvard, Oxford, Cambridge, Universidade da Pensilvânia, Califórnia, Stanford, Michigan, Minnesota, Colorado e Toronto, entre outras, mostram que o estímulo às emoções positivas fortalece os recursos físicos, mentais, emocionais e espirituais, ampliando o nível constante de felicidade e bem-estar, tornando as pessoas mais resilientes e mais preparadas para lidar com problemas e superar adversidades.

Também baseados na psicologia positiva, ganham amplitude movimentos internacionais como o “Imagens e Vozes da Esperança”, que tem o objetivo de inspirar profissionais da comunicação a atuarem com uma visão mais empática, contribuindo para a construção de uma comunicação para inspirar as pessoas à ação. Ele surge na urgência de se propor novas abordagens e narrativas midiáticas. Está voltado para os veículos de massa, mas tem uma lógica que pode se encaixar dentro das empresas. É a narrativa restaurativa, cujo pilar é a capacidade de perceber e construir histórias de pessoas e comunidades que estão mudando a perspectiva do desespero para a resiliência, da competição para a colaboração e a esperança, inspirando seus pares.

A inspiração pela empatia aproxima as pessoas. Estudos no campo da psicologia positiva, conduzidos por Martin Seligman, Sonja Lyubomirsky, Barbara Fredrickson e Leaf Van Boven, só para citar alguns, mostram, também, que existe um conjunto de forças e virtudes a serem estimuladas individualmente para aumentar o nível constante de satisfação pessoal, contribuindo, por consequência, para a construção da felicidade coletiva. Apontam ainda que pessoas mais felizes investem mais tempo e dinheiro em experiências do que em posses; comprovam que assistir e ouvir histórias sobre emoções positivas, como generosidade, compaixão, gratidão, entre outras, pode ampliar o nível de atenção, cognição e ação, aumentando os recursos pessoais duradouros, que funcionam como uma poupança a ser resgatada mais tarde para lidar com ameaças futuras.

É fato que indivíduos imersos em estados emocionais negativos tendem a ser menos proativos e capazes de ajudar a si mesmos e aos outros. Isso é particularmente ruim numa sociedade com um comportamento cultural dependente da liderança do “outro” em vez do exercício ativo da cidadania e do protagonismo social. A queda de confiança no CEO é um ponto de atenção. Uma das reflexões que se coloca é a oportunidade de as empresas estimularem o autoconhecimento, a autonomia, as capacidades técnicas e comportamentais nesse novo conceito.

A liderança deve se apropriar da máxima do “desenvolvimento humano e social” como condição para elevar o patamar de conhecimento e, junto com a comunicação, ser ponte dialógica para gerar experiências, gerir expectativas e percepções positivas, sem perder o senso de realidade para comunicar de forma frequente e honesta as situações ruins. Isso facilita a confiança e influencia terceiros, principalmente em iniciativas colaborativas, potencializando resultados ao considerar a perspectiva de que o mais inovador, atualmente, é a humanização das relações. Com orientação para um modelo “4C1T” (conexão entre as pessoas; convergência de propósitos; coerência de valores; consistência entre discurso e comportamentos; e transparência), as empresas, o CEO e a comunicação podem construir um ciclo virtuoso de coragem e confiança.

adriano-macedo

Adriano
Macedo

Adriano Macedo é jornalista e escritor. Pós-graduado em Gestão de Pessoas pela Fundação Dom Cabral (FDC). Executivo de Comunicação da ArcelorMittal Brasil. Membro e cofundador…Mais artigos