A percepção geral do mercado para os chamados jornalistas de redação é que os postos de trabalho nos veículos estão cada vez mais escassos, principalmente em função das transformações pelas quais atravessa o setor de comunicação. Ao mesmo tempo, outras frentes se abrem para que o profissional busque espaço e ingresse em uma carreira mais abrangente como, por exemplo, na produção de conteúdo para publicações de empresas, relacionamento com a imprensa e com o cliente, comunicação interna, gestão de crises, enfim, são muitas as oportunidades. Porém, essa transição para outras áreas não é fácil e exige novas competências que precisam ser desenvolvidas.

A área de comunicação empresarial é uma das alternativas ao trabalho do jornalista. Alexandre Inácio Machado, gerente de comunicação corporativa e marketing institucional da JBS, indústria de alimentos, que opera no processamento de carnes bovina, suína, ovina e de frango, além do processamento de couros, tem experiência de ter estado 11 anos em redações de veículos como Gazeta Mercantil, Agência Estado e Valor Econômico. Sua motivação para mudar de ares veio quando pensou nas perspectivas para o futuro.

“Não tinha muito para onde evoluir, pois existem poucos grandes jornais no Brasil. No mundo corporativo, em contrapartida, há várias possibilidades de evolução. Na JBS, que é uma multinacional, posso crescer dentro da empresa. É um universo que se abre mais do que na redação, pois oferece um mundo de possibilidades, inclusive de carreira internacional”, revela.

Para conduzir uma mudança de sucesso, Machado acredita que é necessário mudar o pensamento da maioria dos jornalistas, de que as empresas são um ser que quer dominar o mundo. “O veículo de comunicação também é uma empresa, mas a relação é outra. O profissional precisa assumir o papel de quem deve servir à companhia”, afirma Machado.

“Não tinha muito para onde evoluir, pois existem poucos grandes jornais no Brasil. No mundo corporativo, em contrapartida, há várias possibilidades de evolução”

Por sua vez, Celso Calamita, coordenador de comunicação e marketing da Abal (Associação Brasileira do Alumínio), sempre trabalhou com comunicação para o setor industrial. “Sou engenheiro metalurgista e jornalista. Na Editora Segmento fui redator, editor e coordenador do núcleo de publicações corporativas. Também trabalhei nas revistas Metalurgia e Materiais e Alumínio. Tenho convicção de que jornalismo não é uma atividade exclusiva de quem está apenas na redação. Não importa qual função exerça no momento, se foi contratado por uma empresa, agência ou se é um projeto pessoal, você não deve nunca se esquecer de que é um jornalista e, como tal, tem compromissos mínimos a cumprir que são inerentes à sua formação e vocação”, afirma o executivo.

Calamita cita exemplos: “Devemos sempre buscar entregar a melhor informação possível – um texto claro e gramaticalmente correto, uma foto ou vídeo bem produzido ou bem orientado se for feito por terceiros – para seu público, que, dependendo da ocasião, pode ser seu chefe direto ou um departamento inteiro, seu par numa equipe ou projeto, os empregados ou acionistas de uma empresa, repórteres de veículos externos etc. Isto é, mesmo longe da redação não devemos deixar de pensar e agir como jornalistas. E parece óbvio que as pessoas à sua volta não esperam outra postura sua senão essa. Isso é o mínimo, mas é uma base muito sólida para, a partir daí, desenvolver as habilidades que serão importantes para esse jornalista se destacar nas novas funções que não exercia na redação”, analisa.

O gerente de comunicação corporativa da Fibria (empresa que se destaca na produção de celulose), Geraldo Magella Lopes de Barros, trabalhou na Folha de S.Paulo, Exame, O Globo, Forbes, Agência Globo, Globonews.com, IstoÉ Dinheiro e TV Ideal (Grupo Abril). Está há dez anos trabalhando na área de comunicação corporativa.

“Qualquer profissional que deseja mudar de carreira deve se preparar, estudar e planejar. Para o jornalista, penso que vale a mesma estratégia. Primeiro, é importante saber o que quer fazer. Se quer ir para o campo da comunicação corporativa, se quer tentar uma nova profissão que tenha a ver com a sua área de cobertura ou se pretende uma mudança radical, fazendo algo novo, que lhe seja atraente e lhe dê paixão. Nesses casos, acho que a regra se mantém: é preciso se preparar, estudar e planejar”, revela.

No caso específico de Inácio Machado, da JBS, ele vê apenas uma desvantagem na transição. “O mundo corporativo restringe a atuação num único universo. No veículo existe uma abrangência maior e o profissional precisa buscar se envolver nesse novo mundo de outras formas”, explica. Já para Celso Calamita, da Abal, não existem desvantagens, em nenhuma atividade, se o profissional se mantiver curioso em conhecer e aprender novas formas de produzir e entregar seu produto, que para o jornalista, é a informação de qualidade e atraente para seu público. “Não entender isso, em minha opinião, é não se importar com seu trabalho, com seu empregador e, em última instância, com seu público”, completa.

Entretanto, qualquer mudança tem seus desafios. Inácio Machado relembra da ansiedade e do receio de que a iniciativa não desse certo. “Há sempre riscos, mas a vontade de querer fazer algo novo supera isso. Encarei como uma mudança de emprego qualquer”, conta.

O gerente de comunicação da Fibria ressalta que seu caso foi interessante, pois ele era editor de finanças pessoais em uma revista, acostumado a acompanhar o mercado financeiro e de capitais quando recebeu o convite para assessorar o presidente da Bolsa de Valores de São Paulo. “Já gostava e conhecia bem a área na qual fui trabalhar. Além disso, estava terminando o MBA em Finanças, Comunicação e Relações com Investidores, um campo que engatinhava no Brasil e que tem muito a ver com comunicação corporativa.

Cheguei junto com o boom do mercado de capitais, com o lançamento de ações de companhias na Bovespa, os famosos IPOs. Vivi essa ‘era de ouro’ do mercado de capitais com o início de um assunto novo, o da comunicação financeira, algo bem de nicho, especializado, que eu dominava lá de fora, mas que ainda era muito recente aqui no Brasil. Foi um desafio muito bom de viver. E fiz a transição de forma confortável, indo para um mercado no qual navegava. Daí, todos os novos conhecimentos são bem-vindos, você agrega valor e melhora como profissional. E tive o privilégio de trabalhar em boas empresas, com equipes bacanas, em projetos que ajudaram no meu desenvolvimento e no dos meus times”, acrescenta.

“Há sempre riscos, mas a vontade de querer fazer algo novo supera isso. Encarei como uma mudança de emprego qualquer”

Experiências
Em relação às competências necessárias para concluir a transição com sucesso, Machado ressalta que isso depende da função que o profissional exercia no veículo. “Fica mais fácil para quem era editor, por exemplo, pois já conta com certa experiência gerencial e administrativa, o que ajuda muito. No caso de um repórter, a mudança é mais sentida”, conta.

Calamita acha imprescindível conhecer seu público, as ferramentas e os meios para atingi-lo e como medir sua audiência, incluindo dominar as redes sociais. É preciso, segundo ele, saber produzir (ou ao menos orientar) uma mesma informação para múltiplas plataformas – impresso e digital, por exemplo.  “Destaco essas competências pensando na dificuldade do jornalista para encontrar e trabalhar informações de qualidade fora das redações”, revela.

Geraldo Barros ressalta uma diferença importante nas atividades. “O jornalista corre atrás da notícia. O profissional de comunicação trabalha para construir reputação. Quando o repórter trabalha em um veículo de imprensa, ele – que produz conteúdo, a alma do negócio – é uma das partes mais importantes, essenciais para a companhia. Em outras organizações que não de imprensa, a lógica não é a mesma. Daí, é preciso se tornar estratégico, para que os demais membros da organização vejam o seu valor. Muitas empresas vão dizer que a área de comunicação é essencial para o negócio. Na verdade, para a ampla maioria das empresas não é. Cabe ao profissional de comunicação mostrar o seu valor e o valor da comunicação”, explica.

Por isso, o executivo da Fibria avalia, há uma série de habilidades a serem desenvolvidas, como capacidade de negociação, paciência, proatividade, raciocínio rápido, habilidade com números e cálculos, organização. “A vantagem do jornalista é que ele já está acostumado com a pressão por tempo, por deadlines. Mas há uma série de outras questões com as quais muitos não lidam muito bem, como avaliação, feedback, definições de orçamento, controle financeiro e o reporte constante das ações para outros profissionais que não são de comunicação. É por isso que muitos jornalistas não conseguem sobreviver a essa transição”, reflete o executivo.

Sendo assim, é preciso se tornar atraente para uma possível oportunidade de emprego. “Uma coisa necessária e que nem todos sabem é que, em vez de vender a história dos outros, o jornalista precisa aprender a exibir sua própria biografia. É identificar seus principais atributos que podem ser valorizados. Escrever bem e rápido, características da redação, são básicos. É um ativo que a maioria tem, que pode passar despercebido no jornal, mas numa empresa, é essencial. Às vezes, nem ele sabe que tem, mas é valorizado na empresa”, conta Machado.

De acordo com Barros, da Fibria, é preciso desenvolver atributos e competências exigidas para a função a qual ele quer exercer. “No meu caso, por exemplo, nunca fui um jornalista da área cultural. Acho que teria dificuldades para ter sucesso nesse setor, em função do meu desconhecimento. Além disso, acho que o primeiro passo é fazer algo de que goste, com que se identifique, que dê prazer. Assim, fica mais fácil”, define.

A capacitação também não pode ser esquecida, como afirma Inácio Machado. “Qualquer forma de qualificação é bem-vinda, como um MBA (curso de formação de executivos na área de administração), cursos adicionais e de idiomas, de conhecimento em gestão, Excel (aplicativo para operações financeiras), por exemplo. Empresas valorizam atitude e postura diante das situações. Profissional que se pauta e entrega a matéria ganha mais pontos do que aquele que espera ser pautado. Vontade de aprender a dinâmica da empresa vale mais do que um excelente currículo”, afirma.

“Acho que o primeiro passo é fazer algo de que goste, com que se identifique, que dê prazer. Assim, fica mais fácil”

Para Calamita, é preciso estar atento às novidades de comunicação nas redações e nas start-ups (empresas novas e inovadoras). Participar de fóruns de jornalismo, conhecer e testar as novas ferramentas e tecnologias também é fundamental. “Não tenha medo da tecnologia, aprenda HTML (linguagem para desenvolver sites), se aproxime e entenda como pensam os mais jovens”, aconselha. “Também é importante ter em mente que, mais do que partir para cursos de comunicação corporativa ou similares, ainda defendo uma atualização na forma como produzir e entregar a comunicação para esse público cada vez mais consumidor de dispositivos móveis, de informação mais rápida, sucinta, visual.  Nessa linha eu recomendo cursos de jornalismo de dados e jornalismo digital”, afirma.

A primeira necessidade é uma língua estrangeira. Inglês é essencial, assegura Barros. “Tem de ler, falar e escrever direito, corretamente. Só se consegue isso morando algum tempo no exterior. Só os cursos de língua no Brasil, infelizmente, não oferecem isso”, afirma.

Outra sugestão é escolher o campo da comunicação corporativa no qual quer atuar. Há vários: comunicação financeira, relações com investidores, sustentabilidade, assessoria de imprensa, campanhas políticas, divulgação de produtos, gerenciamento de crise, mídias sociais, universo digital e várias outras. Para cada tópico desses há bons cursos no Brasil e outros excelentes no exterior. Hoje, temos a internet como aliada na hora de procurar. Antigamente era mais difícil, era mais no boca a boca”, comenta Barros.

Prática
A bagagem que cada jornalista adquiriu nas redações tem um peso importante na adaptação à nova realidade. Geraldo Barros explica que a favor do profissional há rapidez, agilidade, proatividade, busca pelo novo, curiosidade, capacidade de construir relacionamentos, naturalidade com que cumprem prazos, pois o deadline faz parte da vida de qualquer jornalista. “Por outro lado, contra ele pesam aspectos como certa arrogância intelectual, achar que sabe tudo, que já leu ou cobriu quase todos os temas relevantes, achar que tem um lead em tudo. No mundo corporativo, muitas vezes o lead está no pé e poucos jornalistas conseguem identificá-lo de primeira, para usar uma analogia da nossa profissão. Além disso, os prazos e as urgências no mundo corporativo são outros, pois as prioridades também são outras”, comenta o gerente da Fibria.

O timing também é citado por Inácio Machado como importante. “A dinâmica de tempo é outra, e isso causa impactos diferentes. No meu caso, o ciclo de produção do boi demora três anos e o intervalo da matéria é bem mais rápido. É fundamental também estabelecer confiança com os executivos”, destaca o executivo. Segundo Calamita, tudo que o jornalista aprendeu nas redações pode ser um ponto favorável na nova função. “Essa vivência é de um valor inestimável e um diferencial importante frente a quem nunca experimentou a pressão de uma redação. Contra, só se ele não souber ler o ambiente onde está trabalhando, o seu momento profissional e abrir mão dessa experiência”, completa.

O mercado da comunicação oferece oportunidades para jornalistas que tentam dar uma guinada em suas carreiras atuando na área de PR e em agências de comunicação. Alfredo Ogawa, sócio e diretor na Kreab, é um desses casos. Paulistano de 51 anos, trabalhou de 1986 a  2013 na Editora Abril. Lá foi repórter, correspondente, subeditor, editor, redator-chefe e diretor de redação, passando pelas revistas Placar, Veja São Paulo, Quatro Rodas e Exame. Também exerceu os cargos de publisher e diretor de serviços editoriais. Desde 2014, caminha por novas trilhas profissionais.

“A dinâmica de tempo é outra, e isso causa impactos diferentes”

“Quando você decide mudar de carreira, surgem dúvidas clássicas. A mais importante, pelo menos para mim, foi ‘o que eu sei fazer que o mercado estaria disposto a pagar?’. Depois pensei se eu ‘não estaria sendo otimista ou pessimista demais na sua avaliação’. Para tentar responder essas questões, fiz o que me recomendaram: perguntar para quem já viveu a mesma situação e também para quem já trabalhava nos lugares onde eu imaginava vender minha força de trabalho. Em outras palavras, fui apurar. Nessas horas, a experiência jornalística ajuda”, revela Ogawa.

E como lidar com o medo de encarar o novo desafio? “Quando se passa 26 anos num mesmo lugar – e você é demitido – não dá para dizer que saiu tudo como planejado. Reordenar as peças da sua vida toma um pouco de tempo. O ponto focal era aquele que citei anteriormente. Onde trabalhar com o que eu sei fazer? Não é uma pergunta tão simples de responder quando há uma crise no próprio jornalismo. Eventualmente, a questão passa a ser ‘o que preciso aprender?’. No meu caso particular, o maior desafio foi sair do modo ‘o que comunicar para o leitor/internauta/ouvinte/telespectador’ e entrar no padrão ‘como fazer a mensagem do cliente que represento chegar a quem lhe interessa’”, responde o jornalista.

Para obter essas respostas, Ogawa conta que é necessário descobrir e estudar os problemas que o seu potencial empregador possui. “E mostre que você é o melhor profissional para solucioná-los. Pelo menos, prove que por esse salário que foi oferecido, ele não vai conseguir ninguém tão bom”, resume.

Cláudia Vassallo, CEO da CDI Comunicação Corporativa, construiu sua carreira na editora Abril, atuando como estagiária, repórter, repórter especial, editora, editora-executiva e redatora-chefe, além de ter sido diretora de redação e superintendente. Em sua opinião, o trabalho muda, mas os valores não. “Os bons jornalistas, que hoje ainda estão nas redações, acreditam que aquilo que fazem pode contribuir para mudar as coisas para melhor. Pode ser algo grande, com impacto em toda a sociedade, ou algo pequeno, que mude a realidade de alguém. Sucesso exige uma dose de paixão, uma atitude desprovida de cinismo. Vale nas redações, nas empresas de PR, nas áreas de comunicação das empresas. É preciso levar o trabalho sempre a sério”, conta.

A agora executiva reconhece que viveu anos maravilhosos dentro da redação. “Fiz tudo o que gostaria de ter feito e tive a sorte de vivenciar uma grande fase do jornalismo. Sem falsa modéstia, deixei um legado como repórter, editora e diretora de redação. Fiz matérias desafiadoras, ajudei a criar novas publicações de sucesso, entrevistei pessoas incríveis, construí uma trajetória de credibilidade. O que mais eu poderia querer? Adoro a vida que tive nas redações em que trabalhei, mas chega um momento em que é preciso se reinventar, voltar a aprender com certa intensidade e ter a possibilidade de construir coisas novas. Não é um movimento fácil. Claro que dá medo, mas quase sempre é necessário”, explica.
Com experiência de quatro anos atuando em revista, Silvia Palhares hoje é executiva de atendimento sênior da S2Publicom Weber Shandwick. Para ela não foi uma mudança tão radical. “Foi uma escolha minha, pois já estava cansada do ritmo e da falta de controle com o tempo, querendo melhores condições de vida. Foi bom, pois agreguei o que sabia da redação para o trabalho na assessoria. Ajudou para ter a visão do que é interessante. Assessoria não é só falar bem do cliente. Essa é uma visão errada que se tem nas redações”, aponta.

Silvia, porém, faz um alerta: “É imprescindível estudar. O jornalista, quando está bem numa determinada posição, tende a se acomodar, e é obrigado e deixar essa zona de conforto para atender contas variadas. Para isso, é fundamental se despir de preconceitos e mostrar interesse, estudar com quem vai falar e lidar, ter o mínimo de preparo nesse sentido. Tornar-se atraente é ter conhecimento do que está fazendo. Demonstrar segurança, sem ser convencido”, adverte.

Outra executiva de atendimento sênior da S2Publicom Weber Shandwick, Renata Primavera, aproveita o tempo que a nova função permite para dar asas ao prazer de escrever em seu blog pessoal (parkaholic.com), onde fala sobre parques. Ela sempre atuou no setor de entretenimento, inclusive quando trabalhava em revistas. Hoje se dedica a contas de canais como Warner Channel, TNT, Space, TCM, Cartoon Network e CNN. “Por mais irônico que possa parecer, o que falta aos jornalistas nessa transição é informação. Ele acha que sabe o que o outro lado do balcão faz e, quando se está muito tempo na redação – mesmo em contato próximo com assessores –, não se tem a ideia correta. Por isso, fica difícil tomar uma decisão nesse sentido. O que me motivou foi mais a oportunidade do que a vontade. Foi muito interessante a proposta do mercado, trabalhar numa empresa e com clientes que eu adorava”, conta a executiva de contas.

“É imprescindível estudar. O jornalista, quando está bem numa determinada posição, tende a se acomodar, e é obrigado e deixar essa zona de conforto para atender contas variadas”

Para Renata, claramente as vantagens na mudança para o universo corporativo estão na estabilidade, na vida mais regrada, embora não signifique menos trabalho. “Há mais valorização como profissional. Atuo num esquema de banco de horas, e ele é respeitado. Posso trabalhar à noite e finais de semana, mas sempre sou recompensada. Continuo fazendo muito do que o jornalista faz, mas com mais controle da informação, do processo. A desvantagem é que você tem agregado às atividades um trabalho mais burocrático. Em resumo, o principal é estar disposto a dar um passo atrás, no caso de ter sido chefe no emprego anterior. É ter humildade para aprender”, define.

Formada em jornalismo, com especialização em cinema, Micheli Nunes, executiva de comunicação da S2Publicom Weber Shandwick, trabalha na equipe exclusiva da Turner Broadcasting System do Brasil. Ela é responsável pelo segmento Kids&Teens, que inclui os canais Cartoon Network, Boomerang e Tooncast. Antes, atuou como repórter de cultura e cinema no Diário de São Paulo por três anos. Para ela, o primeiro passo nessa mudança é olhar ao redor. “Muita gente sai da faculdade achando que jornalismo é só redação, mas as possibilidades são inúmeras. No dia em que eu soube que a diretora de uma grande empresa de entretenimento era jornalista, eu percebi que ser repórter e editora não eram minha única opção. A vida na redação ainda é envolvida em muito glamour, isso faz com que as pessoas criem um apego excessivo pela vaga. Vejo pessoas talentosíssimas em empregos que as exploram e pagam mal, sem nenhuma perspectiva de melhora, e elas nem consideram a possibilidade de procurar outras oportunidades. Se essas pessoas fossem médicas, advogadas, engenheiras, talvez já tivessem partido para outra”, conta.

E qual seria um bom conselho para quem se encontra nessa situação? “Seja realista. Não adianta reclamar todos os dias e continuar estagnado. Se não tem perspectiva de melhora, mude. Em geral – com poucas exceções – as redações não estão contratando. Se você não é um recém-formado que topa receber o piso salarial, então olhe para as outras áreas. É possível encontrar salários melhores, cargas horárias muito mais leves e muito menos estresse”, revela a executiva.

Micheli aponta para a necessidade de o jornalista se manter atualizado, presente nas redes sociais e ter noção do mercado. “Estar na redação pode deixar a pessoa meio cega em relação a outras áreas. É preciso ler bastante, e não apenas jornais. E saber para onde o jornalismo e os jornalistas estão migrando em países onde a mídia impressa já é menos relevante do que no Brasil. Também é fundamental ter um bom relacionamento com os colegas de outros veículos e com as equipes de relações públicas com quem você lida. Ninguém vai lembrar do jornalista chato e grosseiro na hora de indicar para uma vaga. E não se pode esquecer do desapego. Desapego é fundamental”, conta.

Júlia Korte, também executiva de contas na agência S2Publicom Weber Shandwick, atuou como repórter de comportamento, sociedade, saúde, sexo, tecnologia e tendências de moda/beleza, com passagem pela VídeoSom e Tecnologia, Cosmopolitan e Época. Para ela, paciência é fundamental durante o período de transição. “É preciso calma tanto para investir em uma mudança, quanto para esperar a oportunidade certa”, ressalta. Redirecionar a carreira não é exatamente uma mudança fácil ou rápida, segundo Júlia. “No meu caso, o primeiro passo foi conversar com muitas pessoas da área da comunicação, marketing e publicidade ou com experiência em agências para entender como o mercado funciona. Depois de refletir sobre tudo que descobri, comecei a pesquisar cursos na área que pudessem contribuir para melhorar o meu conhecimento. O mais importante dessa etapa foi descobrir novas referências e modelos de negócio que se distinguem das redações. O passo final foi sondar agências, vagas de emprego em sites tradicionais de busca e encaminhar o currículo. Para minha sorte, depois de um grande investimento pessoal, me deram uma oportunidade incrível na S2Publicom Weber Shandwick”, relembra.

“E não se pode esquecer do desapego. Desapego é fundamental”

Nova ideia
Uma mudança conceitual importante, apontada por Júlia Korte, é em relação à vocação do jornalista, que não é mais, apenas, a informação, mas pensar a comunicação como um todo, envolvendo publicidade, relações públicas, como usar as novas tecnologias e redes sociais. “Essa é a grande vantagem. Há muitos caminhos a serem descobertos ainda, muito a aprender e o profissional pode escolher fazer parte dessa mudança”, diz.

Com atuação em veículos como o antigo BOL, UOL, IstoÉ Dinheiro, Valor Econômico, BBC, Época Negócios e Rede TV, em 20 anos de carreira, Edson Porto hoje é vice-presidente de atendimento e influência da Agência Ideal. Ele garante não ter sentido muito a transição, porque nos últimos anos já exercia cargos de chefia. “Estava relativamente habituado à experiência de gestão. Quando resolvi mudar, isso ajudou muito na mudança. Mas de fato para quem está na linha de frente, como repórter, é difícil, há um choque bem maior. A diferença, fora isso, é que as agências estão mudando de perfil, ficando mais abrangentes. Assessoria de Imprensa é apenas um pedaço do negócio de PR”, conta o jornalista.

Para Porto, as habilidades do profissional são muito úteis nesse meio. “Aliás, para qualquer área da comunicação. É preciso saber entender, identificar e contar uma boa história. Mas também é necessário ter contato com gestão de pessoas, planejamento e finanças. Além disso, e que é algo difícil para o jornalista, é se adaptar e entender que ele está na agência para servir ao cliente. O profissional de redação servia ao seu leitor ou espectador. A lógica e a dinâmica são completamente diferentes. O aprendizado disso é o mais difícil na transição”, adverte.

“Há muitos caminhos a serem descobertos ainda, muito a aprender e o profissional pode escolher fazer parte dessa mudança”

Sugestões importantes
Ogawa sugere a participação em cursos para o profissional se reciclar. “Há muita informação disponível na internet sobre carreiras (ou oportunidades) novas ou velhas. Aproveite agora e tire proveito do que talvez tenha causado sua saída. Só não deixe de conversar com seus amigos e sua rede de contatos – pessoalmente”, afirma.

Nara Malacrida indica que o Sindicato dos Jornalistas oferece bons cursos profissionalizantes. “A Abracom (Associação Brasileira das Agências de Comunicação) e a Aberje (Associação Brasileira de Comunicação Empresarial) também proporcionam inúmeras possibilidades de aperfeiçoamento”, reforça.

Características
Apesar de não ser jornalista – é formada em Relações Públicas (PR) – Heloísa Picos, sócia e vice-presidente da G&A Comunicação, tem experiência suficiente para apontar as características de um profissional de redação que devem ser mantidas e quais podem ser adaptadas e também aprimoradas, levando-se sempre em conta as competências necessárias para o desenvolvimento como consultor de comunicação. “Entre as marcas do bom jornalista que atua em uma redação estão a cultura geral, discernimento, curiosidade, excelente texto e jogo de cintura. Tudo isso é muito importante no mundo empresarial. Ao colocar essas suas aptidões a serviço da comunicação corporativa, um profissional com essas características precisa, necessariamente, aplicar essas mesmas particularidades em sua nova função. O que muda é o seu foco, que passa a ser o papel de consultor. Uma das principais competências desenvolvidas no trabalho em redação, seja de qualquer plataforma – jornal, revista, online, TV ou rádio –, é a habilidade para identificar o potencial de transformar as informações em notícias, isto é, de contar histórias de uma maneira que o leitor compreenda”, finaliza.

Uma boa possibilidade para os jornalistas que deixam as redações é apostar e investir em uma carreira solo, isto é, partir para o empreendedorismo e montar um negócio próprio. No entanto, essa opção profissional apresenta desafios complicados, principalmente no que se refere ao retorno financeiro imediato.

Jorge Luiz de Souza é dono de uma longa trajetória em redações. Jornalista e economista, atuou em importantes veículos da imprensa brasileira. Foi diretor da sucursal de O Estado de S. Paulo em Brasília, diretor da sucursal da Gazeta Mercantil em Salvador, diretor de redação de A Gazeta, em Vitória (ES), chefe da sucursal da revista IstoÉ em Brasília e diretor adjunto do jornal Valor Econômico, em São Paulo. Foi também editor sênior e correspondente internacional da Gazeta Mercantil, editor de Exame, Desafios do Desenvolvimento, Negócios da Comunicação e do DCI. Foi editor-assistente de Veja, repórter especial da Época e da Rede Globo, além de assessor de imprensa do Banco do Brasil e Banco Central e subsecretário de Comunicação da Presidência da República. Desde 2008, trabalha como freelancer com sua própria empresa, a Burarama Conteúdos, e presta consultoria em estratégia de comunicação, em parceria com agências. Em 2013 e 2014, assessorou a presidência da Federação do Comércio do Rio de Janeiro e, atualmente, é também editor do portal avosidade.com.br.

“A primeira dificuldade para fazer a transição é ter uma ideia original, porque há um grande número de jornalistas competentes sendo obrigados a mudar a carreira forçados pelo vertiginoso encolhimento do mercado de trabalho, que se prolonga por muitos anos – e ainda vai continuar. Com toda essa competição, é muito difícil ser bem-sucedido fazendo o que todos os outros também podem fazer. A grande maioria dos profissionais que saiu das redações buscou seguir carreira onde a demanda crescia, prestando serviços de assessoria de imprensa. Ocorre que, como chamamos no jargão profissional, o outro lado do balcão é diferente e nem todos se adaptam”, explica Souza.

Segundo o jornalista, empreendedorismo depende de vocação e não é para qualquer um. “Obviamente, sempre se pode superar as próprias limitações com empenho, dedicação, paciência e perseverança. Um empreendimento, para dar certo, normalmente demora bastante tempo, e, naturalmente, os riscos de fracasso são grandes, como se pode ver com grande parte dos profissionais que partiu para esse lado. E uma coisa é ser empreendedor numa atividade conexa ao que se fazia numa redação, e outra é mudar radicalmente, como abrir um restaurante. Já trabalhar como frila pode ser a realização pessoal de muita gente, mas, com um mercado que paga cada dia menos para quem se dedica ao ofício de escrever, a pessoa também deve ter uma noção firme de que essa felicidade custará uma mudança de hábitos para ajustar as despesas pessoais a um nível mais modesto. Apesar desse cenário sombrio, as alternativas são muitas. Há jornalistas que se tornaram escritores e se deram bem. Outros abandonaram a vaidade pessoal e se tornaram escritores ocultos, os ghostwriters”, revela.

No entanto, a experiência acumulada é fundamental no novo caminho. “Nenhum jornalista teria sobrevivido numa redação se não fosse ágil, criterioso e competitivo. Estas são características que favorecem o profissional onde quer que ele vá. O maior problema é que toda pessoa competitiva também tem um ego grande. E isso é o que mais pesa contra o jornalista quando ele se muda para outras atividades, porque sofre uma avassaladora tendência a se desestimular facilmente com o novo trabalho”, completa.

Paulo Vieira atuou na editora Abril como redator-chefe da revista Viagem e Turismo e editor-adjunto de Ilustrada, da Folha de S.Paulo. Hoje, escreve para veículos diversos e para o site que criou, o jornalistasquecorrem.com.br.  “Quanto à minha experiência pessoal, não posso dizer que seja modelar. Tudo que parece sólido hoje pode se desmanchar no ar em dias, até porque não deixei de fazer coisas que têm relação muito estrita com a minha profissão, e o jornalismo realmente encolheu. Se o cara pretende, como eu, seguir como jornalista, minha recomendação é se manter ativo. Você tem de aparecer nas mídias sociais para não sumir, mas não pode ser irrelevante. Tem de saber o ponto certo entre a massificação e o conteúdo que realmente conta. E isso é intuitivo”, afirma.

“Nenhum jornalista teria sobrevivido numa redação se não fosse ágil, criterioso e competitivo. Estas são características que favorecem o profissional onde quer que ele vá”

Vieira não crê que todos consigam ser empreendedores. “Não me considero um, mas se for investir nesse objetivo, acho que é preciso dar uma olhada no Sebrae, conversar sobre franquias e aprender a usar Excel. Mas o principal é tentar saber administrar o tempo, e os conselhos para isso quem dá são esses caras especializados”, completa.

Para manter seu negócio sustentável, isto é, como conseguir viabilizar patrocínios, ele não tem a resposta. “Se alguém tivesse, aliás, já estaria famoso. Algo que posso dizer é que é preciso estar próximo de pessoas que já fazem essa intermediação com patrocinadores. Jornalistas que passaram a vida na redação não costumam ter traquejo para buscar grana. Pelo menos, os bons jornalistas”, avalia.

Opressão
Adriana Negreiros trabalhou em redações durante 17 anos. Começou em 1996, no Diário do Nordeste, em Fortaleza, onde foi repórter de política e cotidiano. Em 2001 entrou na revista Veja. Foi correspondente em Fortaleza e Salvador e depois se transferiu para a redação em São Paulo, onde trabalhou como repórter de uma seção chamada Guia. Em 2004, participou do Programa de Recrutamento Interno e foi para a Playboy, atuando como repórter e editora. Saiu em 2012, sendo transferida para a revista Claudia, onde foi editora. Saiu da Abril em 2013, passou um mês na Marie Claire (editora Globo) e saiu de lá para se dedicar à vida de freelancer. Hoje escreve para revistas, faz trabalhos como ghostwriter e é uma das criadoras do projeto Fale com Estranhos (publicado em falecomestranhos.com.br).

“Resolvi sair das redações por uma série de motivos. A vida corporativa, com os seus códigos, me oprimia. Fora isso, eu me ressentia de passar muito tempo dentro de um local sem fazer o que eu realmente gostava, que era ir para a rua, fazer reportagens. Já naquela época, as constantes demissões tornavam a vida de quem ficava no emprego muito difícil – o clima era péssimo, nos corredores não se falava em outra coisa, eu me sentia muito absorvida por toda aquela energia negativa. Então, decidi que seria mais feliz – ainda que mais pobre – vivendo como jornalista freelancer”, conta.

Entre as vantagens da transição, Adriana cita a sensação de liberdade como a maior delas. “Finalmente tenho algum controle sobre o meu tempo. Quando você tem um emprego, o dono do seu tempo é o seu chefe. Quando se tem filhos, como é o meu caso, é muito libertador. Também posso me dedicar a alguns prazeres e projetos pessoais. Depois que saí das redações, voltei para a faculdade (faço Filosofia na USP) e criei, em parceria com o diretor de arte Daniel Motta, um projeto diletante, autoral, chamado Fale com Estranhos. Enfim, minha vida me pertence muito mais do que pertencia antes”, revela.

Instabilidade
Contudo, segundo a jornalista, a principal desvantagem é a instabilidade financeira, pois há meses em que se ganha mais, outros em que não se recebe nada. “Nos meses difíceis, é preciso ter muita paciência e saber que o futuro tende a ser melhor. Sinceramente, acho que esta é a única desvantagem. Quando saí da redação, senti medo de ficar sem dinheiro, de perder os contatos, de ser esquecida. O principal desafio foi organizar a minha rotina de forma a não deixar que a vida pessoal tomasse conta de tudo”, afirma.

Para Adriana, é fundamental ter um bom domínio sobre o tema sobre o qual o jornalista se debruçará em sua rotina. Cada vez mais, além disso, é preciso ter habilidade e desenvoltura em diferentes ambientes, como as redes sociais, além de dominar técnicas de vídeo, ter noções de fotografia, edição de imagens. “A qualificação é uma questão de treino e estudo. Um curso que fiz e que me ajudou muito foi o Empretec (para empreendedores), do Sebrae. É preciso livrar-se da pele de empregado, que muitos de nós temos, e assumir uma nova persona, de empreendedor, de responsável pelo próprio nariz, o que nem sempre é fácil”, esclarece a jornalista.

Ambiente favorável
Kiko Nogueira é ex-diretor das revistas Viagem e Turismo, Alfa e do Guia Quatro Rodas, além de ex-editor da Veja São Paulo, todas na editora Abril. Hoje, é diretor adjunto e sócio-fundador do site Diário do Centro do Mundo (diariodocentrodomundo.com.br). Ele tem convicção de que todo jornalista precisa empreender. E o ambiente personalizado da internet favorece isso.

Os principais receios de Nogueira, ao fazer a transição, foram ficar sem dinheiro, dificuldade de se adaptar a uma nova rotina, ser dono do próprio tempo e, principalmente, o desafio de ser dono das próprias ideias. Para obter êxito nesse projeto, avalia, é necessário usar com competência as ferramentas disponíveis na internet e ter capacidade de interpretação para ser original num mundo em que todos têm opinião publicada.

Outra sugestão que Nogueira oferece é ler boas histórias de empreendedorismo, aprendendo com elas e se lançando sem receio dos riscos. “É preciso estar em contato com os fundamentos de uma boa reportagem, por exemplo. O que é um bom texto e o que é um texto ruim. O que o leitor quer saber e o que não interessa. De resto, é fundamental o espírito disposto a aprender muita coisa nova e a se reinventar”, finaliza. 