O ano de 2016 marcou o Brasil pelos acontecimentos nos âmbitos econômico e político. O público consumiu mais notícias e dirigiu seu olhar também para o posicionamento editorial dos veículos. Este fato trouxe à tona uma discussão sobre ética no jornalismo: como manter a qualidade da apuração sob a pressão das linhas editoriais e, principalmente, o volume maior de reportagens demandadas pela audiência?
Nessas horas o conhecimento profundo do setor tratado é um diferencial e proporciona ao profissional especializado mais segurança e credibilidade.
Acostumado com temas como a Operação Lava Jato, o editor de indústria e infraestrutura do Valor Econômico, Ivo Ribeiro, acredita que há uma vantagem para o jornalista especializado na hora de lidar com pautas delicadas. “Ele tem a vantagem de estar sempre dedicado ao assunto ou área; dessa forma, conhece mais profundamente o que ocorre naquele determinado setor e ganha confiança com porta-vozes”, explica.
Quando ocorreu o desastre ambiental de Mariana, Minas Gerais, causado pelo rompimento de uma barragem da Samarco Mineração, o jornal Estado de Minas teve de direcionar uma equipe específica para acompanhar os desdobramentos da tragédia. Tarefa difícil que a subeditora de Economia, Marta Vieira, levou com segurança, por ter um conhecimento amplo do setor. “Ter o faro mais apurado nos faz buscar informações completas e dá condições de nos aprofundarmos no tema tratado”, analisa.
A possibilidade de lidar com pautas “espinhosas” fez com que Alexandre Canázio, editor do CanalEnergia, e sua equipe pudessem transmitir confiança para os consumidores das notícias. “Cobrimos a questão do risco hidrológico, que resultou em uma guerra de liminares no setor elétrico. São assuntos áridos que levaram nossa redação a discutí-los com firmeza e segurança, tendo um retorno bem positivo de nossos leitores.”

 

Educação

Esta especialização ajuda a elevar o nível de qualidade do setor, afirma Rubem Barros, diretor de redação da Educação. “É como um bom crítico de alguma linguagem artística; eles têm papel muito relevante no diálogo com os criadores”, diz.
No segmento da educação, o papel analítico dos jornalistas especializados, segundo o editor, ajuda a qualificar o debate. “Você precisa saber o porquê de estar medindo tal e qual coisa, a serviço de que visão e propósitos educacionais.”
Colunista de Educação da Folha de S. Paulo e organizadora do conceituado Ranking Universitário Folha, Sabine Righetti desenvolveu um trabalho meticuloso no último ano: cruzou a base de alunos enviados ao programa Ciência sem Fronteiras com rankings internacionais. “Descobri que só 3,75% deles tinham sido enviados para as melhores universidades do mundo – como se propunha o programa –, nem o governo tinha esse dado, fiz uma pergunta e fui atrás da resposta nas bases brutas”, conta.

“Fazer o crochê”

Ações como as de Sabine são o que Celso Ming, comentarista de Economia de O Estado de S. Paulo, chama de “fazer o crochê” — ou seja, puxar as pontas e tentar saber para qual lado as coisas pendem, fazer uma análise aprofundada do contexto —, uma função importante do especialista. “Estamos vivendo uma crise econômica e política e temos de refletir sobre o que isso significa”, afirma.
Foi o que fez Filipe Serrano, editor de Tecnologia da revista Exame, que ganhou o Prêmio CNI de Jornalismo, em 2015, pela reportagem Geração Startup, um trabalho de apuração de seis meses. “O especialista tem clareza dos temas que são importantes, e sabe quais fontes deve buscar para fazer uma boa apuração”, ressalta.
Para Paula Cesarino Costa, ombudsman da Folha de S.Paulo, quando se trata de temas polêmicos, a imprensa deve se desprender da dependência de relatos como os da Polícia Federal e Ministério Público. “Isso não é salutar. Há muitas questões sem resposta que os jornalistas poderiam e deveriam investigar”, afirma.

O especialista tem clareza dos temas que são importantes, e sabe quais fontes deve buscar para fazer uma boa apuração

Atuando no mercado especializado de Seguros, a jornalista Kelly Lubiato é editora da revista Apólice e fala sobre o desafio de sempre mostrar alternativas ao consumidor. “Há muitos temas que geram polêmica, como a judicialização dos planos de saúde ou a chegada de novos produtos ao setor”, exemplifica. O apresentador do Programa Seguro, Boris Ber, ressalta o papel de fiscalizador do jornalista especializado. “Temos de ficar alertas, para evitar quebras de empresas, que dão prejuízo aos segurados e à imagem do seguro.”
A repórter nos setores Farmacêutico e Química e Petroquímica do jornal Valor Econômico, Stella Fontes, chama atenção para a dificuldade de manter o alto nível de qualidade na profissão.
“Muitos jornalistas se esforçam para fornecer informações em tempo real ao leitor e, ao mesmo tempo, encarar coberturas investigativas que demandam muita dedicação, apuração e tempo”, diz Stella, que também ressalta: “Conciliar esses dois formatos não é tarefa fácil”.

Princípio ético

Para a repórter especialista em Varejo no Valor Econômico, Adriana Mattos, a chave é ter “transparência com as fontes e leitores em relação a todas as informações apuradas, especialmente com RPs e assessorias”. Henrique Pátria, editor-chefe da revista Siderurgia Brasil, faz coro: “A ética prevalece acima de tudo, não vale você distorcer uma informação para ficar do jeito que agrada a todos”.
O jornalista acredita que o sensacionalismo, disseminado em muitos veículos, não é praticado pelos profissionais da mídia segmentada.

“O papel do jornalista é revelar a verdade que encontrou, para isto tem de se cercar de todas as garantias de que está sendo honesto consigo mesmo, equilibrado ao colocar as questões, mas revelar com dignidade tudo aquilo que realmente aconteceu”, reforça Pátria.
Bruno Rosa, repórter d’O Globo, na cobertura de Petróleo e Gás, sintetiza o compromisso com a informação, pois “sem ética e responsabilidade é impossível produzir um material de qualidade e de confiança”, diz.