No Dia da Liberdade de Imprensa, jornalistas são atacados por grupo pró-Bolsonaro

Dida Sampaio, fotógrafo do Estadão, é derrubado da escada pelos manifestantes Foto: Ueslei Marcelino/Reuters

“A imprensa deve servir aos governados, e não aos governantes”. A frase faz parte da sentença histórica, do processo do Pentagonon Papers, em que The Washington Post é absolvido. Com a vitória, o jornal foi liberado para tornar público os papéis secretos a respeito dos verdadeiros números de mortes dos soldados americanos na Guerra do Vietnã. Segundo as informações oficiais, as batalhas estavam sendo vencidas e haviam poucas baixas. Décadas depois, a imprensa brasileira enfrenta cenário parecido.

Enquanto luta para alertar a população sobre a gravidade do novo coronavírus, as medidas de proteção e a subnotificação dos casos, o presidente da República, Jair Bolsonaro antagoniza com repórteres e veículos de comunicação. Neste domingo, 3 de maio, Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, não foi diferente. Jornalistas presentes na rampa do Palácio da Alvorada para cobrir mais um ato pró-Bolsonaro foram atacados com empurrões, chutes e socos. Entre eles, Dida Sampaio, do Estadão, foi derrubado duas vezes da escada em que estava tentando fotografar o presidente, levando chutes e um soco no estômago.

O presidente, alertado do que estava acontecendo, aproveitou o momento para reforçar críticas à imprensa. “Pessoal da Globo, vem aqui para pegar um cara ou outro falar besteira. Essa TV realmente foi longe demais”, disse. A fala foi transmitida ao vivo nas redes sociais. Os ataques à imprensa têm sido uma constante no governo atual e estão se tornando cada vez mais frequentes. Tanto no sexta-feira (01), quanto no sábado (02) foram registradas ofensivas contra profissionais de imprensa por parte de apoiadores de Bolsonaro. Não à toa, o Brasil caiu duas posições no ranking sobre liberdade de imprensa do Repórteres Sem Fronteiras.

O Estado de S. Paulo emitiu nota de repúdio aos atos cometidos contra sua equipe de jornalistas. O texto aponta que se trata de uma agressão covarde contra o jornal, a imprensa e a democracia. “A violência, mesmo vinda da copa e dos porões do poder, nunca nos intimidou. Apenas nos incentiva a prosseguir com as denúncias dos atos de um governo que, eleito em processo democrático, menos de um ano e meio depois dá todos os sinais de que se desvia para o arbítrio e a violência”, diz o texto.

A Diretoria da Abraji e do Observatório da Liberdade de imprensa da OAB apontam que tais agressões têm sido incentivadas pelo comportamento do presidente Jair Bolsonaro. “A deterioração da liberdade de imprensa, fomentada por autoridades eleitas e servidores públicos, é um risco grave para a democracia. A Abraji e o Observatório da Liberdade de Imprensa da Ordem dos Advogados do Brasil cobram das instituições republicanas que protejam o direito da sociedade à informação. Os três poderes, nas três esferas, não podem se mostrar passivos diante da violência física e simbólica contra os jornalistas, e devem punir agressões e reagir aos discursos antidemocráticos”, apontam em nota.

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“Infodemia”

Ocorrido foi repudiado pelas entidades e associações de jornalistas, além da imprensa em geral. Além de representantes de setores da sociedade e autoridades do governo. Como o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal: “Dia da liberdade de imprensa. Mais que nunca precisamos de jornalismo profissional de qualidade, com informações devidamente checadas, em busca da verdade possível, ainda que plural. Assim se combate o ódio, a mentira e a intolerância.”, publicou em uma rede social.

Para marcar o Dia Mundial da Liberdade de Imprensa, a ONU promove o tema “Jornalismo sem medo ou favor” e levanta a bandeira da importância desses profissionais em meio a crise atual. “Jornalistas e profissionais da mídia são cruciais para nos ajudar a tomar decisões informadas. À medida que o mundo luta contra a pandemia da COVID-19, essas decisões podem fazer a diferença entre a vida e a morte”, aponta o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, em vídeo oficial. Ele faz um apelo ao governos e a sociedade para que possibilitem que os jornalistas possam executar seu trabalho nesse momento. “Hoje, agradecemos à mídia por fornecer fatos e análises; por responsabilizar os líderes – em todos os setores; e por falar a verdade ao poder. Reconhecemos particularmente aqueles que estão desempenhando um papel que salva vidas ao dar relatos sobre a saúde pública”, completa.

Já Audrey Azoulay, diretora-geral da Unesco, ressalta que dar informações ao público significa dar meios para combater a doença, ainda mais em meio a “infodemia” de boatos e desinformações em circulação sobre o novo coronavírus – que colocam a vida de todos em risco. “Neste momento crucial e para o nosso futuro, precisamos de uma imprensa livre, e os jornalistas precisam poder contar com todos nós”, diz.

No Brasil, a Representação da UNESCO lidera a campanha, ao lado das entidades ligadas ao jornalismo, como a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e TV (ABERT), a Associação Nacional de Jornais (ANJ), a Associação Nacional dos Editores de Revistas (ANER), a Associação de Jornalistas de Educação (JEDUCA) e o Instituto Palavra Aberta. Elas convidam os governos e a sociedade para, juntos, em um movimento online ressaltar as questões essenciais à imprensa livre e independente.

Dentre as ações propostas pelas entidades está a realização na segunda-feira, dia 4, às 17 horas, do webinar “A importância do jornalismo em tempos de pandemia e desinformação”, que será transmitido simultaneamente nas páginas do Facebook e nos canais de YouTube de todas as apoiadoras. O debate contará com Marlova Noleto, diretora e representante da UNESCO no Brasil; Atila Iamarino, biólogo e divulgador científico; Antônio Gois, colunista de educação do jornal O Globo e presidente da Jeduca e Patricia Blanco, presidente do Instituto Palavra Aberta.