Foi em uma aula de escrita criativa na Universidade de Berkeley, na Califórnia, que percebi, racionalmente, como um profissional da arte literária se sente: escritores não gostam de escrever; gostam de ter escrito. Essa é uma daquelas frases que já não se sabe quem disse primeiro, mas eu me lembro da Lindsey Crittenden, professora do curso, reproduzi-la com um sorriso sábio no rosto, como de mãe que precisa contar ao filho como as coisas são – sem dramas.

Por algum tempo, achei que havia algo de errado com minha decisão de escolher o jornalismo e a literatura como arte e profissão. Porque não importa o quanto a cadeira, a postura e o prazo sejam confortáveis; a tensão sempre pesa sobre os músculos e nervos da minha coluna cervical. Tenho amigos que, depois de anos de prática, descobriram um desgosto, às vezes certo pânico, da tela em branco, da frase truncada, da hora que passou sem deixar um único parágrafo consumado.

O fato é que escrever por ofício e compromisso, buscando o alto desempenho na criação artística, tem suas dores, até mesmo para autores renomados. É como no esporte: um atleta olímpico, querendo ser o mais rápido ou mais resistente, estica os limites de seu próprio corpo e, não raramente, tem um colapso muscular.

O que nos coloca em vantagem, em relação ao atleta que desafia seu corpo, é que não há limites para desejar escrever a melhor história. Não para “uma pessoa cujas horas mais introvertidas e apaixonadas são dedicadas a organizar palavras em pedaços de papel”, como descreve Joan Didion, uma das mais habilidosas escritoras da atualidade. Atravessamos as lacunas da mente e do pensamento criativo e nos acostumamos com elas, assim como nos habituamos a andar na escuridão por cômodos que não mais precisamos ver para reconhecer. E, se tiver que doer, que assim seja.

Não existe magia alguma no ato de escrever. Acredite: eu sei. A falta de inspiração é uma desculpa decadente que adia o nosso acerto de contas com a indisciplina, a perda de foco, a insuficiência técnica, o fazer descomprometido. Talvez, todo bom texto comece com desastrosos primeiros esforços. Talvez, você não tenha persistido o tempo necessário. E a única forma de aprender essa arte é forçar a si mesmo a produzir regularmente uma meta invariável, inadiável.

Outra definição dessa atividade que me agrada bastante é de William Zinsser, autor de “On Writing Well” (obra não traduzida para o português): “Toda escrita se trata, no fim das contas, de solucionar um problema. Pode ser o problema de como obter os fatos ou organizar o material. Pode ser de abordagem ou atitude, de tom ou estilo. Seja o que for, deve ser confrontado e resolvido. Às vezes, você vai se desesperar para encontrar a solução certa – ou qualquer uma. Mas, quando eu finalmente soluciono um problema, é porque eu sou como um cirurgião removendo seu 500º apêndice; eu sei que já estive nesse lugar antes”.

Não estou subestimando quem cria suas linhas sem a pretensão de merecer um Prêmio Jabuti, nem defendendo que apenas um profissional da escrita é capaz de narrar uma história consistente, útil e fascinante. Não é disso que se trata. Porém, ao radiografar a minha linha do tempo no LinkedIn, tomada de artigos de consultores, acadêmicos, empreendedores e CEOs, eu (leitora) vou à caça: dentro dessa populosa rede de formadores de opinião (ou aspirantes à posição), o que existe de original, sincero, relevante, belo e, efetivamente, impactante?

Você deve imaginar a minha resposta.

Mas ela não é importante. Considere, apenas, que a minha busca é a mesma do leitor que você almeja agradar.

São mais de 150 mil posts publicados semanalmente no LinkedIn, segundo Daniel Roth, editor executivo da empresa. E você pode até conseguir elevar a sua voz nesse tumulto – se tiver tempo, foco, disciplina, bagagem de leitor, domínio do idioma, conhecimento de ferramentas simples que a literatura e o jornalismo nos emprestam, força criativa, poder de concisão e, talvez, algum talento. Ou, então, pode colocar o conhecimento e as boas histórias que colecionou nas mãos de um ghostwriter, esse sujeito habituado à solidão e ao silêncio que antecedem o contentamento de “ter escrito”.

Por hoje, chega. A tensão na cervical já começa a incomodar.

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Silvia
Paladino

Silvia Noara Paladino é cofundadora da agência essense jornalista, escritora de não-ficção e biógrafaMais artigos